Feio é o desperdício

Quem é: Isabel Soares

Porque é importante: criou a cooperativa Fruta Feia para lutar contra o desperdício de alimentos, em Portugal, e valorizar os pequenos agricultores

Em geral, acreditamos que o desperdício de alimentos é coisa de países em desenvolvimento como o Brasil, onde a população nunca passou por privações causadas por longos períodos de guerra. Mas não é bem assim. Apesar de os brasileiros despontarem no ranking mundial deste quesito, na Europa – arrasada por duas grandes guerras, no século 20 – a situação não é muito diferente. Essa percepção sempre incomodou a engenheira ambiental Isabel Soares, que nasceu e cresceu em Lisboa. Especialmente quando descobriu que o descarte irracional estava ligado ao aspecto do produto e não à sua qualidade nutricional. Com isso, os mais prejudicados eram os pequenos e médios agricultores que viam sua renda reduzir sobremaneira, por conta de regras de comercialização consideradas injustas.

No final de 2013, ela resolveu passar da indignação à ação e criou a cooperativa Fruta Feia. A iniciativa surgiu a partir do concurso Ideias de Origem Portuguesa, destinado a incentivar portugueses expatriados a desenvolverem projetos inovadores para serem adotados na terrinha. Na época, Isabel morava e trabalhava em Barcelona, depois de ter passado uma temporada no Brasil. Seu projeto acabou ficando na segunda colocação. Por conta disso, para tirar a ideia do papel, ela teve de lançar mão de uma campanha de crowd funding (vaquinha virtual).

Mais do que fazer a ponte entre produtores e consumidores, a cooperativa atua a partir da lógica da sustentabilidade de todo o processo. Faz isso a partir da adoção de práticas do Comércio Justo. Os agricultores recebem o valor idêntico ao dos produtos “bonitos”. Também existe a preocupação com as emissões de gases de efeito estufa derivados do transporte. Por isso, a coleta e a venda se dá num raio de 30 km a partir da área rural das cidades situadas entre Lisboa e Porto, onde ficam as sete bases da Cooperativa. “Não queríamos que os consumidores aderissem ao Fruta Feia somente pela expectativa de pagar mais barato por um alimento”, explica. “Mas que entendessem a importância de seu ato na luta contra o desperdício que chega a 40% em toda a Europa”.

Desperdício baseado na estética

Em menos de cinco anos, Isabel se tornou uma celebridade no continente. Na entrevista concedida via skype a 1 Papo Reto, ela contou que continua na linha de frente do projeto que conta com apenas quatro contratados fixos e uma centena de voluntários. Para dar conta do recado, ela adotou uma disciplina espartana. “Atendo apenas a 2% dos convites para palestras e seminários”, diz. De fato, o Fruta Feia é um sucesso tanto no quesito institucional quanto no comercial. Exemplo disso é que a prefeitura de Lisboa determinou a inclusão de “frutas feitas” no cardápio das escolas públicas, ao menos um dia por semana.

Hoje, a Cooperativa conta com 3.109 consumidores cadastrados que pagam uma anuidade de € 5 (cerca de R$ 18), além do valor (de € 3,50 a € 7) por cada cesta recebida semanalmente, dependendo do peso (4 kg ou 8 kg). A composição dos produtos varia conforme a colheita realizada pelos 124 agricultores. Com isso, em quatro anos deixaram de ir para o lixo nada menos do que 582 toneladas de frutas, verduras e hortaliças. “A lógica capitalista valoriza uma mentalidade baseada no consumo excessivo e de forma irresponsável, bastante perceptível no chamado fast fashion”, critica. “E isso chegou também à alimentação”.

É como diz o slogan da cooperativa: Gente bonita come fruta feia!

 

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