Um prato de liberdade

Quem é: Rosemary Perez Varea Guareschi

Por que é importante: criou a primeira empresa do País que emprega apenas pessoas egressas do sistema prisional e jovens em risco social

O Brasil possui a terceira maior população carcerária do planeta. São 622 mil homens e mulheres atrás das grades, montante somente inferior ao dos Estados Unidos (2,2 milhões) e da China (1,6 milhão). Por aqui, a taxa de reincidência também é expressiva, variando entre 24,4% e 70%, dependendo da amostragem. A recaída está ligada à dificuldade de reinserção deste contingente no setor produtivo, apesar de pipocarem, aqui e ali, experiências destinadas a conceder uma segunda chance para quem se desviou da rota.

E ninguém foi tão longe neste propósito quanto a empresária Rosemary Perez Varea Guareschi, fundadora e presidente da rede de restaurantes Julietto, baseada em Recife. À exceção de suas cinco filhas todos os demais 180 funcionários da rede, composta por 12 restaurantes, são egressos do sistema prisional, estão sob algum tipo de medida protetiva ou vivem sob risco social. Desde 2001, nada menos que 1.706 homens e mulheres com este perfil passaram pela empresa, atuando no processamento dos alimentos, no transporte, na armazenagem, na preparação final dos pratos e no atendimento ao público.

“Não me interessa o passado de ninguém. Para mim, o que vale é a vontade de aprender e de desempenhar as funções com qualidade”, diz dona Rose como ela faz questão de ser chamada. O formalismo inclui também o cumprimento: nada de beijinhos na face, apenas um firme aperto de mão. O rigor também é estendido aos demais campos da empresa. Formada em administração, ela se diz obcecada por desempenho e lucratividade. Para dona Rose, um negócio com esse tipo de pegada social, e que não conta com qualquer benefício fiscal, só tem se sustentado de pé e crescido graças a três fatores: controle severo dos custos, rigor no treinamento e a qualidade dos ingredientes das mais de 50 mil refeições servidas por mês. Para extrair o melhor de uma mão de obra deficitária em todos os quesitos foi criado um manual de treinamento. As dinâmicas abarcam desde cursos de alfabetização até cuidados com a higiene pessoal.

No aspecto motivacional, a empresa adota um agressivo pacote de benefícios (bônus em dinheiro, mobilidade na carreira, além de uma cesta de benefícios socioculturais: passeios para sessão de cinema, teatro e partidas de futebol (leia-se os jogos do Santa Cruz, o time mais popular do Estado).

Cadeia de restaurantes de massa está presente em shoppings da Grande Recife

Dona Rose diz que essa foi a forma encontrada para se manter no disputadíssimo mercado de refeições fora do lar e cumprir sua missão social. “Precisamos liderar pelo exemplo”, diz. “Uma sociedade melhor depende do esforço cotidiano de cada um de seus integrantes”. Trata-se de um discurso que remete aos fundamentos da filosofia da Empresa B, teoria lançada nos Estados Unidos, em 2006, e que defende a importância da responsabilidade social das empresas. Ou seja, pode-se dizer que, mesmo sem se dar conta, a Julietto foi pioneira neste conceito por aqui.

Apesar de manter a guarda sempre levantada – a empreendedora reconhece ser uma pessoa rigorosa –, ela começa a relaxar. O peso e a importância de seu trabalho social e econômico vêm sendo cada vez mais reconhecidos pelos integrantes da elite econômica e política do estado. Prova disso foi a outorga dos títulos de cidadã recifense e pernambucana, em 2015 e 2016, respectivamente. Honrarias que dona Rose fez questão de dividir com os moradores das comunidades onde vivem seus funcionários, além de todos os parceiros de negócios. Afinal, mais do que vender “a um preço justo, a melhor refeição à base de massas, do Brasil”, como ela faz questão de pontuar, a rede de fast food trabalha com sonhos. “A Julietto treina, capacita e faz com que o jovem voe alto”.

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