Negócios com propósito. Econômico e social

“Eu desejo ganhar dinheiro. Aliás, muito dinheiro. Mas esse dinheiro só fará sentido para mim se vier como fruto de meu trabalho e de meus ideais.” A frase proferida pelo empreendedor Helder Dias, fundador da agência de modelos HDA Models, deu o tom no concorrido painel Afroempreendedorismo para Atender uma Demanda Órfã no Mercado: o Afroconsumo, no último dia do Festival Path, realizado em São Paulo.

A vinculação de satisfação e propósito, com o desejo de fazer a diferença e deixar um legado, mexe com a cabeça de empreendedores de diversos calibres. Tanto os que comandam grandes corporações nascidas no Vale do Silício, na Califórnia, berço da chamada Nova Economia, como também os que estão à frente de negócios de menor calibre.

Neste contexto, o mundo dos negócios também pode se converter num poderoso instrumento de inclusão social. Mesmo que algumas empresas se pautem somente por uma visão capitalista clássica, que valoriza a cor azul nos números da última linha do balanço financeiro. No entanto, em se tratando de Brasil, nem mesmo a possibilidade de ganhar dinheiro (aliás, muito dinheiro!) faz com que alguns setores mudem seu modelo mental, prevalecendo o “business as usual”.

Uma pena, de acordo com o pesquisador Fernando Montenegro, fundador da consultoria Etnus. “A força de consumo dos afro-brasileiros é estimada em R$ 700 bilhões, por ano”, diz ele. “Não me parece inteligente que as empresas negligenciem uma bolada deste tamanho.”

Sem dúvida, não deveriam. Mas é exatamente isso que acontece.

Consulesa Alexandra Loras fala no Festival Path
Consulesa Alexandra Loras fala no Festival Path

“Quando assisto uma propaganda de xampu indicado para cabelos normais, vejo uma imagem que não me representa. Tampouco os demais 51% da população brasileira”, destaca a consulesa da França, Alexandra Loras, jornalista de formação e observadora arguta das questões raciais no Brasil. “Existe um racismo estruturado na sociedade que faz com que a população negra seja estigmatizada e vinculada a coisas ruins.”

Uma mudança de postura como a busca de novos nichos de consumo deveria ser encarada como uma estratégia acertada por parte dos fabricantes de produtos de consumo. Especialmente num período de crise econômica, como pontua Fernando, lembrando que as vendas de produtos de beleza e higiene pessoal caíram 2,5%, em 2015, o maior recuo em 20 anos.

“A queda nas vendas de produtos de alisamento de cabelos chegou a 26%, e os empresários insistem em culpar a crise”, critica. “Contudo, eles continuam ignorando movimentos sociais como o de transição capilar, que já reúne cerca de três milhões de jovens que desejam voltar a ter o cabelo crespo.” De fato, estas comunidades se multiplicam nas redes sociais a cada mês.

Para a empreendedora social Adriana Barbosa, criadora da Feira Preta, muitos gestores de empresas que fabricam produtos de consumo padecem de preguiça. E isso fica evidente não apenas no fato de eles ignorarem oportunidades de negócios envolvendo cosméticos para cabelos crespos, como também por sua incapacidade de se esforçar para atender outras especificidades da comunidade negra.

BLACK CODES

Helder Dias/Foto: Allan Gregorio (divulgação)
Helder Dias/Foto: Allan Gregorio (divulgação)

Ela alerta, no entanto que não basta colocar o produto nas prateleiras de farmácias e supermercados e fazer uma campanha de marketing. “É preciso ficar atento aos códigos específicos que identificam o modo de consumo desta comunidade”, destaca.

Segundo ela, os erros do passado protagonizados por inúmeras grandes empresas no trato com este contingente a levaram a criar o projeto Black Codes. “A partir de pesquisas, estamos construindo ferramentas que ajudam a traçar o perfil desse público”, conta Adriana. E no que depender de Whellder Gellewar, um dos criadores do Encontre Afro, autointitulada a maior plataforma brasileira para encontrar afroempreendedores e consumidores, esse movimento tende a crescer de modo exponencial.

“Precisamos escapar de uma armadilha do sistema que vincula o afroempreendedorismo apenas aos setores de moda e beleza”, alerta. “Isso restringe nossas ações.” Whellder, que também é estudante de ciências sociais na Universidade de São Paulo (USP), defende uma postura mais aguerrida. “A representatividade é importante”, diz. “Por isso, temos de nos colocar de uma forma mais ampla no mercado de trabalho e nos negócios.” O site funciona como uma espécie de vitrine de profissionais afro-brasileiros, de todas as áreas de atuação.

Aliás, é baseado nos preceitos de valorização da autoestima, qualificação técnica e do empoderamento que o coreógrafo e fundador da HD Models toca a mais bem-sucedida agência focada em modelos negros. Antes de fazer um book, no entanto, os candidatos a modelo têm de passar, e serem aprovados, em um curso de 120 horas, envolvendo 33 disciplinas.

Helder toca a agência de olho na excelência e na rentabilidade do negócio, mas sem deixar de valorizar as características intrínsecas deste contingente de brasileiros. “Modelo com cabelo alisado não entra no meu cast. Para trabalhar comigo tem de encrespar.”

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  • Ana Paula empreendedora

    Muito boa essa matéria. Parabéns.

    • Obrigado. Vamos avisar o autor que gostou dela.