O plano da Thompson

Na profusão de sons emitidos por veículos, pelos passos apressados e pelas vozes das cerca de um milhão de pessoas que transitam, diariamente, pela região da avenida Paulista, a semi quietude que vigora na rua Mario Amaral, distante exatos 600 metros da famosa avenida, nos remete a um cenário bucólico. Especialmente em seu primeiro quarteirão. Ali, salta aos olhos um jardim ricamente povoado com árvores e plantas típicas da Mata Atlântica, que ajuda a acalmar a alma e pacificar o olhar. É neste terreno que está encravada a agência J. Walter Thompson Brasil, controlado pelo Grupo WPP, o maior conglomerado de propaganda e relações públicas do planeta, com receita anual de R$ 60 bilhões.

Nos últimos dias, no entanto, o jardim ganhou um concorrente de peso. Isso porque, ficou difícil caminhar pelo quarteirão sem reparar que o grande muro lateral da entrada, situado entre a calçada e a portaria, está diferente. A série de cartazes, no estilo lambe-lambe, colados em toda a sua extensão, avisam que alguma coisa está por acontecer.

À primeira vista, a opção por grafismos e ícones da contracultura mais escondem do que explicam. Coisa de publicitário, diriam alguns! Contudo, é difícil ficar indiferente às imagens a ponto de não percorrê-las com os olhos em cada um de seus quadrantes até encontrar, estrategicamente colocado no plano inferior, a seguinte inscrição: “NÃO SOMOS TODOS IGUAIS. MAS AS OPORTUNIDADES PRECISAM SER”, ao lado de uma mensagem gráfica “BLACK+WHITE=POWER”.

Bem, desde a terça-feira (23/5), o cartaz tem funcionado como um misto de manifesto e de saudação de boas-vindas para os participantes da Semana da Equidade Racial, promovida pela agência em parceria com a consultoria de RH EmpregueAfro, pioneira em programas de diversidade racial no mundo corporativo.

Mais do que uma série de debates qualificados com especialistas, a inciativa teve por objetivo lançar o programa 20/20, destinado a ampliar o grau de diversidade racial dentro da empresa. O projeto começou a ser desenhado em meados de 2016, durante um bate papo entre o publicitário Ricardo John, vice-presidente de criação da Thompson, e Andrea Assef, diretora de comunicação. “Ficou claro para nós que a agência precisava refletir melhor a diversidade do país no qual ela está inserida”, diz John, como ele mais conhecido. “E isso está sendo feito não apenas pelo altruísmo, como também pela busca de uma maior competitividade do negócio”.

Na manhã de quinta-feira (25/5), quando o publisher e fundador de 1 Papo Reto integrou a roda de conversa, o publicitário deixou claro que a ambição da Thompson nesta área é imensa. “O nome do projeto é 20/20 porque queremos ter, pelo menos, 20% dos cargos em áreas estruturais da agência (como criação, planejamento, mídia e atendimento) ocupados por negros, até 2020”. Uma meta para lá de ousada, levando-se em conta a baixíssima representatividade de afrodescendentes no meio publicitário, em geral.

RODA DE CONVERSA: a partir da esq. Rosenildo (1 Papo Reto), Lina Moreira (publicitária), John (JWT), Ezra (JWT), Patrícia (EmpregueAfro), Theo van der Loo (Bayer), Larissa Armani (Google), Raphaella Antonio e Andrea (JWT)

Para acelerar o processo, a agência se socorreu de especialistas. É neste contexto que entra em cena a EmpregueAfro. O projeto começa com um programa de seleção de talentos (veja detalhes no link abaixo) e terá um olhar diferenciado, comumente usado em programas de inclusão. “Queremos formar profissionais competitivos e que possam nos dar em troca um conhecimento que não temos”.

A diversidade é parte do DNA da Thompson. Contudo, na prática, este olhar e esta prática estavam confinados aos quesitos de orientação sexual e de gênero. O CEO Ezra Geld é assumidamente gay e duas mulheres (Mariana Borga e Renata Leão) atuam como diretoras de criação, área considerada uma espécie de Olimpo numa agência de publicidade.

Porém, mesmo neste ambiente descolado e numa cultura organizacional que favorece a inclusão, a questão racial sempre passou despercebida. “A mídia e o mercado de propaganda comunicam um mundo irreal”, diz Ezra. “Precisamos mudar isso e este programa é uma forma de levantar a questão internamente e para todo o mercado”.

 

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Texto atualizado às 12h15min de 27/5/2017

 

N.R.: O jornalista, escritor, consultor e maker Rosenildo Ferreira atuou como consultor na primeira etapa do projeto

 

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