Ao sabor do vento

Nos cerca de 130 quilômetros que separam o Aeroporto Salgado Filho, em Porto Alegre, do município de Xangri-Lá a paisagem reserva algumas surpresas. A primeira delas surge por volta do KM 83 da rodovia RS 030, na cidade de Osório, quando miramos na direção leste. Uma a uma vão se desnudando no horizonte imensas torres com pás gigantes que giram ao sabor do vento. No Rio Grande, vento atende pelo nome de Minuano, a corrente fria que sobe do polo sul para amenizar a intensidade do calor que afeta gaúchos, catarinenses e até os paranaenses. E a incursão de 1 Papo Reto a estas plagas tem relação direta com torres, energia e ventos. Afinal, estamos a caminho do ambicioso projeto eólico implantado há um ano pela Honda Energy do Brasil, uns 50 km dali, sentido norte.

Ambicioso porque se trata da única experiência do gênero, no mundo, tocado pela gigante japonesa que fabrica veículos de quatro e de duas rodas, além de aeronaves – por meio de sua divisão Honda Aircraft Company. A opção por esta vertente energética foi a forma encontrada pela subsidiária para se adequar à decisão anunciada pelo então presidente mundial da Honda Motor Company, Takanobu Ito. Em 2011, ele assinou uma diretriz determinado um corte de 30% nas emissões de gases que causam o efeito-estufa, como o dióxido de carbono (CO2), levando-se em conta os números de 2000. A medida tinha prazo até 2020 para ser implementada e cada subsidiária deveria definir como se adequar.

Ao optar pela construção de um parque eólico, a filial brasileira não apenas atingiu rapidamente a meta como gerou um excedente de 20 pontos percentuais já no primeiro ano de operação. Para isso, investiu R$ 107 milhões, em recursos próprios. O montante foi gasto no arrendamento do terreno de 327 hectares, na aquisição das nove torres e aerogeradores fabricados pela dinamarquesa Vestas, além dos equipamentos de controle e conexão à rede.

No período de 12 meses, as nove turbinas do Parque Eólico de Xangri-Lá produziram 60 mil Megawatts de energia, o suficiente para atender a demanda de uma cidade com cerca de 35 mil habitantes. Quase três vezes maior que a da jovem cidade que empresta o nome ao complexo eólico, e que nasceu em 1992, a partir de uma consulta popular que a emancipou de Capão da Canoa.

Ilustração mostra o funcionamento do parque eólico
Ilustração mostra o funcionamento do parque eólico

O balneário homônimo à mítica cidade criada pelo escritor britânico James Hilton, autor do best-seller Horizonte Perdido, vive as agruras típicas dos demais destinos turísticos que têm o verão como maior atrativo. Nos meses de janeiro e fevereiro, argentinos e rio-grandenses abonados seguem para o balneário para curtir suas praias. A mais famosa é Atlântida, considerada o paraíso do surfe no Estado. Por conta disso, a população da cidade, composta de 13 mil habitantes, se multiplica por 10, na alta temporada. Os turistas trazem dinheiro, mas também problemas.

Mas uma coisa é certa. Não falta energia em Xangri-Lá. Ao contrário. A maior fatia do que é gerado no Parque Eólico da Honda nem fica na região. Os 60 mil MW saíram das turbinas eólicas direto para a subestação Atlântida 2, pertencente à Eletrosul, empresa de energia que atende o Estado. A partir daí, foram colocados no Sistema Interligado Nacional (SIN), gerando créditos para a fábrica de automóveis da Honda, em Sumaré (SP).

O excedente ao consumo da unidade fabril é vendido no Mercado Livre de Energia. “A Honda é a única do setor automotivo no Brasil que se abastece integralmente com energia renovável”, diz Carlos Eigi Miyakuchi, presidente da Honda Energy do Brasil.

RUMO AO NORDESTE

O executivo, que acumula o cargo de vice-presidente da Honda Automóveis do Brasil (HAB), diz que o “apetite eólico” da montadora está longe de ser saciado. “Nossa meta é produzir energia suficiente para compensar cada quilowatt consumido também no complexo de motocicletas, em Manaus.” Como a unidade de Xangri-Lá não comporta uma expansão na medida das necessidades da fábrica do Polo Industrial de Manaus, o objetivo de Eigi, como o engenheiro é mais conhecido, é implantar um parque eólico no Nordeste.

As negociações com a matriz já começaram. A autorização é necessária mesmo que os recursos para fazer frente à empreitada sejam gerados localmente. Até porque, projetos deste tipo possuem um payback (recuperação do dinheiro investido) de 7,5 anos, mais que o dobro do considerado ideal pelo board mundial: 3,5 anos.

Mas, o presidente da Honda Energy Brasil segue confiante. Sua maior ambição é disseminar o aprendizado adquirido com a implantação de Xangri-Lá. Para fazer frente ao desafio de atuar em uma área completamente nova, Eigi contou com um seleto time formado por seis engenheiros. Três deles cuidam, hoje, do dia a dia da operação. “Nosso grande desafio foi a falta de conhecimento sobre este setor”, diz ele. “Mas o desejo de tirar o projeto do papel sempre foi maior que o medo de fracassar.”

Vídeo mostra, em timelapse, o processo de implantação da unidade

 

 

 

N.R.: O jornalista viajou a convite da Honda Energy do Brasil

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