Gastronomia que muda vidas e permite sonhar

Curitiba é conhecida como a mais fria das capitais brasileiras. Lá, a temperatura média ao longo do ano não passa dos 20 ºC. No pico do inverno, os termômetros descem abaixo dos 10 ºC, com bastante regularidade. Mas a sisudez e a introspecção esperadas de pessoas submetidas a esta rígida condição climática não se fizeram presentes na tarde de sexta-feira (12/5). Pelo menos não no espaço contíguo à fábrica de eletro-portáteis que a sueca Electrolux mantém no Distrito Industrial. No principal salão do complexo de lazer, cerca de 50 pessoas conversavam animadas.

Quem mais chamava a atenção era um grupo composto de 14 mulheres e dois homens que se reuniam ao lado de uma mesa ricamente ornamentada com diversos acepipes. Antepastos, salgados, doces e pães com visual caprichado e sabor característico da boa comida caseira. A cada instante uma das mulheres abordava um dos convidados: “Não vai provar?” “Todos os pratos e sucos fomos nós que fizemos!”.

A euforia não era para menos. Afinal, eles estavam prestes a receber o certificado de conclusão do curso de auxiliar de cozinha no âmbito do programa Gastronomia Sustentável, uma iniciativa da fabricante de eletrodomésticos em parceria com órgãos públicos e ONGs. No grupo bastante heterogêneo, cujo traço comum era a elegância (todos vestidos com “roupa de domingo”), era quase impossível não reparar no largo sorriso de Maria Aparecida Maciel, 62 anos, matriarca de uma prole que inclui quatro filhos, nove netos e quatro bisnetos.

Apesar da idade, ela diz que não pensa em se aposentar. Há dois anos, começou a auxiliar a filha na cozinha de uma escolinha no bairro de Vila Verde, nas cercanias da fábrica da gigante sueca. “Esse curso me ajudou a melhorar a minha qualificação como profissional de gastronomia”, conta.

Recém-saída da adolescência, Cristina Helena de Lima, 21 anos, exibe igualmente com orgulho o certificado. Para ela, que acaba de ser mãe de Vicktor, o domínio de técnicas de preparação de alimentos representa um passo importante em sua trajetória pessoal e futuro profissional. “Eu amo cozinhar. É minha terapia”, diz.

Projeto Global

Maria Aparecida: “Doce de casca de melão é uma delícia!”

Apesar de não ter sido uma iniciativa da subsidiária, o Brasil é pioneiro neste programa idealizado pelo board mundial. A ideia surgiu numa reunião do time global de sustentabilidade. “Decidimos assumir a tarefa e rodar um piloto porque a redução do desperdício é um dos focos de nosso programa de sustentabilidade”, explica Ricardo Cons, CEO da Electrolux América Latina. “Além disso, conseguimos ampliar as ações sociais direcionadas à comunidade no entorno de nossas fábricas, introduzindo o conceito de aproveitamento integral de alimentos”.

O executivo contou que após duas edições do curso, iniciado em 2017 e no qual já se graduaram 34 auxiliares de cozinha, o projeto será estendido para a cidade de São Carlos (SP) e aos demais países onde a empresa atua. Começando por Rosário, na vizinha Argentina. E não para por aí. “Além da América Latina, o Gastronomia Sustentável está em fase implementação no Egito e na Rússia”, diz Valmir Buscarioli, vice-presidente de recursos humanos da Electrolux América Latina.

Apesar de os números parecerem tímidos, levando-se em conta o porte da empresa e sua capilaridade, é importante destacar o efeito multiplicador de um programa do tipo. Segundo Buscarioli, o impacto indireto atinge até mil pessoas a cada edição, especialmente no que se refere à mudança da cultura alimentar. Para desenhar e operar o piloto, a subsidiária contou com a parceria de inúmeros colaboradores, entre ONGs, órgãos governamentais e empresas privadas: AIESEC, Worldchefs, Sodexo, Instituto Stop Hunger e Prefeitura de Curitiba.

Autonomia profissional

Isso, sem contar o apoio precioso de 11 renomados chefs locais, que atuam como professores-voluntários. Profissionais do quilate de Claudinei Oliveira, do Devons Steak House. “Resolvi me engajar atraído pela proposta do curso, de valorizar a gastronomia de qualidade a partir do aproveitamento integral dos alimentos”, explica. Ao longo de 24 anos de profissão, ele teve a oportunidade de viajar por inúmeros países da América Latina e da Europa, para pesquisar receitas.

Cristina Helena: “Agora, quero ir cozinhar em Paris!”

Nestas andanças, adquiriu uma consciência crítica em relação ao papel da indústria alimentícia e também dos desperdícios no dia a dia. “Uma das grandes dificuldade ao longo do curso é convencer os alunos de que é possível preparar pratos gostosos e de qualidade, utilizando produtos básicos”, lembra. “A maioria ainda acredita que apenas com ingredientes caros é possível preparar refeições saborosas”.

Ao que parece, o chef foi bem-sucedido nesta cruzada. Que o diga Maria Aparecida que descobriu as qualidades e o sabor do doce feito de casca de melão. “Agora não jogo mais nada fora. Tudo é reaproveitado e a minha família adora as novas receitas”, diz. A turma aprendeu ainda a manusear os diversos tipos de facas, procedimentos de higiene para evitar contaminação e técnicas de preparo de alimentos, num curso cuja duração é de 12 semanas e que deverá beneficiar diretamente 60 pessoas de baixa renda, neste ano, selecionadas com o auxílio da Fundação de Assistência Social (FAS), ligada à prefeitura.

Por sua vez, a jovem Cristina Helena, que enxergou no curso uma opção de fonte de renda e um lenitivo aos efeitos da depressão pós-parto, faz planos ambiciosos. “Meu sonho é ir para Paris abrir um restaurante para mostrar a gastronomia brasileira para os europeus”.

Para aqueles que pretendem seguir carreira ali pertinho, na Grande Curitiba, o departamento de Recursos Humanos da Electrolux garante apoio em diversas frentes. Eles apendem técnicas de como se conduzir numa entrevista de emprego, recebem ajuda para preparar o currículo e são encaminhados para empresas parceiras. “Nosso objetivo é acompanhar a evolução profissional de cada um deles”, destaca Buscarioli, vice-presidente de recursos humanos Electrolux América Latina.

 

SAIBA MAIS

 

Sobre o programa For the Better

 

 

 

  • O jornalista viajou a Curitiba a convite da subsidiária da Electrol

Texto atualizado às 23h de 14/5/2018

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