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Máquina de fazer reciclagem

Quem tem mais do que 50 anos deve se lembrar da época na qual a aquisição de um refrigerante ou mesmo de água mineral dependia do famoso casco, o nome popular da embalagem de vidro vazia. Quem não dispunha do casco não conseguia comprar uma nova garrafa com o líquido desejado. Os anos se passaram e entraram em cena as embalagens de aço, de alumínio e de plástico (PET). Apesar disso, o vidro continuou em alta, especialmente no envase de alimentos (especialmente conservas, óleos e molhos) ou de bebidas (notadamente as destiladas). O casco caiu em desuso e as embalagens retornáveis foram substituídas por descartáveis. Inclusive no segmento de vidro. Foi neste contexto que os fabricantes e revendedores entraram na mira dos ecologistas. Afinal, o que fazer com tanta embalagem vazia?

A resposta surgiu a partir de dispositivos legais, como a Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS). Sancionada em 2010, a lei determina a criação de sistemas de recolhimento e descarte correto de resíduos. Especialmente as embalagens. Alguns segmentos, como o de alumínio, acabaram saindo na frente graças ao valor comercial adicionado à cadeia. Resultado: nada menos do que 98% das latinhas produzidas no Brasil são reincorporadas ao sistema.

Mesmo antes da PNRS já era possível verificar um avanço nas taxas de reciclagem, em geral. Estudo do IPEA, órgão de pesquisa ligado ao Ministério do Planejamento, mostra que este movimento começou a ganhar força a partir do ano 2000. Quer seja pelo imperativo legal ou por conta de uma visão mais holística das empresas em se apresentarem como fontes de soluções ambientais diante da sociedade.

Este contexto tem propiciado o surgimento de diversas startups. Uma delas é a Triciclo, que começou atuando com o aluguel de máquinas para descarte inteligente de embalagens: garrafas PET, latas de alumínio e embalagens cartonadas, em 2016. “Trata-se de um negócio que assume um importante papel ambiental, social e econômico para as empresas”, destaca o empreendedor Felipe Lagrotta Nassar Cury, sócio-fundador da Triciclo. Hoje, a empresa dispõe de 23 Retorna Machine espalhadas em diversas empresas e estações de metrô, em São Paulo, que pagam apenas uma taxa mensal de manutenção. “Atuamos no conceito 360º, assumindo todas as etapas do processo”.

Foi isso que chamou a atenção dos executivos da subsidiária da americana Owens Illinois (O-I), líder mundial em embalagens de vidro. No início de 2017, a empresa encomendou à Triciclo o desenvolvimento de máquinas capazes de coletar embalagens de vidro. A fase de testes se deu em um “ambiente controlado” com quatro equipamentos instalados em unidades da empresa em São Paulo, no Rio de Janeiro e em Recife. Para incentivar o descarte, a máquina gera recompensas que fazem sentido para cada público: desde créditos para o bilhete único, até pontos em programas de fidelidade de livrarias e descontos na conta de energia elétrica.

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Máquina de coleta de vidro instalada numa das unidades da Owens Illinois

“Os resultados foram positivos”, destaca Reinaldo Kühl, gerente da categoria Foods & NAB da O-I na América Latina da O-I no Brasil. “Nos surpreendemos com o nível de adesão dos funcionários, tanto na fábrica quanto nos escritórios”. Agora, estes equipamentos também serão levados para pontos-de-venda de grande circulação, como supermercados. Está previsto, ainda, o desenvolvimento de um modelo itinerante, para ser usado como ferramenta de educação ambiental em eventos de grande porte.

Pelo lado da Triciclo, o ganho se dá de inúmeras maneiras. A partir do atendimento de necessidades específicas de cada cliente ou com a venda de espaços publicitários nos equipamentos, dentro do conceito marketing ligado a causa, feito por uma mídia proprietária. De acordo com Cury, os primeiros dois anos de operação serviram para validar o modelo de negócio e fazer as correções necessárias. Feita a lição de casa, ele diz que, agora, a tendência é crescer de forma exponencial. “Vamos ampliar em até 150% o número de máquinas instaladas no país”, prevê.

Advogado de formação, Cury deixou o escritório de advocacia para se tornar empreendedor ao analisar as oportunidades trazidas pela PNRS e sua vivência fora do Brasil. Antes de se aventurar neste ramo ele avaliou o modelo de negócio dos concorrentes. Ao fazer as contas, descobriu que a produção local dos equipamentos seria um equívoco. Especialmente por conta do custo de fabricação três vezes maior em relação ao importado da China.

Cury não está sozinho neste universo de brasileiros e estrangeiros que enxergam o grande potencial de ganhos em empreendimentos ligados à sustentabilidade. Se levarmos em conta apenas o que se classifica normalmente como lixo, podemos dizer que a reciclagem pode gerar R$ 120 bilhões em negócios, por ano, no Brasil.

 

SAIBA MAIS:

Sobre o estudo do IPEA

R$ 120 bilhões nos aterros

 

 

 

 

 

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