Na trilha da inovação. Do litoral para o interior

A cana de açúcar já foi a principal riqueza da região Nordeste, especialmente na porção entre Alagoas e a Paraíba. Em Pernambuco, especificamente, essa gramínea de caule longo deitou raízes e ajudou a definir a elite local que, em 1630 bandeou-se para o lado dos holandeses. Passados 387 anos, as usinas e as plantações continuam ocupando um lugar de destaque na paisagem pernambucana, especialmente ao longo das rodovias que cortam a boa parte da Zona da Mata. Mas já não reina absoluta. Aliás, faz tempo. E foi num terreno de 1,1 mil hectares, no município de Goiana, onde até bem pouco tempo havia somente um canavial, que a Jeep, comandada pela FCA do Brasil, resultante da fusão entre a italiana Fiat e a americana Chrysler, decidiu recomeçar a contar sua história no Brasil.

Uma história que mistura inovação, requalificar territorial, aposta no talento local e bastante ousadia. Afinal, não parece uma tarefa fácil erguer uma estrutura composta de 12 prédios, incluindo os ocupados pelos 16 fornecedores, numa área de 270 mil m², em apenas dois anos. Fosse apenas isso, já daria para surpreender em se tratando de um projeto que consumiu R$ 2 bilhões.

No entanto, a Jeep foi além. Especialmente no quesito mão de obra. Até àquele momento, boa parte se seus operários, supervisores de linha e chefes de seção estavam dando expediente no comércio ou na lida do corte da cana, de facão em punho. A conversão se deu no Centro de Pesquisa e Desenvolvimento de Pessoas, onde foram realizados cursos e dinâmicas. Antes de ir para as diversas áreas da produção, cada um dos operários realizou a tarefa 200 vezes. A transição é apontada pela empresa como um exemplo global de práticas de treinamento e gestão de pessoal.

Cristiano Félix, gestor de meio ambiente da FCA Latam

Para o auxiliar de produção José Marcos Vicente Ferreira Júnior, 25 anos, contudo, essa jornada representa um futuro repleto de possibilidades. “Dos 10 operários que entraram no curso só fiquei eu”. Assim como ele, outros tantos trabalhadores colecionam histórias de superação pessoal. Alguns foram enviados para aprender o ofício no exterior. Outros, foram capacitados no local, com o auxílio de técnicos e gestores vindos da Itália e dos Estados Unidos.

É nesta verdadeira Babel Sertaneja, onde atuam 8,5 mil pessoas, 90% dos quais nascidos no Nordeste e cuja idade média é de 28 anos. Ali são produzidos alguns dos veículos mais importantes do portfólio da FCA, em termos globais: o Compass e o Renegade, ambos da linha Jeep, e o Toro, da Fiat. O mais “valente” da turma, o Renegade, é um sucesso. Desde seu lançamento, em 2016, já foram comercializadas 121 mil unidades. O Compass, por sua vez, figura como o SUV (veículo utilitário esportivo, da sigla em inglês) mais vendido do Brasil, enquanto o Toro já percorre ruas e estradas de boa parte dos países da América Latina. A capacidade produtiva total é de 250 mil veículos por ano.

Sob o sol inclemente da Zona da Mata o “refresco” é garantido pela reserva de Mata Atlântica que a FCA instalou num dos cantos do terreno. Em dois anos, já foram cultivadas 88 mil mudas de 289 espécies de um total de 614 catalogadas na região. “Em dois anos nós plantamos quase 70 mil mudas no terreno e sempre que existe demanda nós doamos mudas para a comunidade”, conta Cristiano Félix, gerente de meio ambiente da FCA para América Latina, que atuou como cicerone do grupo de jornalistas. O trabalho é feito com o objetivo de criar um corredor ecológico para animais.

Foi destes viveiros que saíram as espécies arbóreas e florais típicas da outrora mata nativa: pau-brasil, mogno, sucupira, baraúna, bromélia, alamanda, entre outras; plantadas no imenso jardim em frente à entrada do prédio principal do complexo. A importância deste trabalho de restauração pode ser medida de duas maneiras: trata-se do maior viveiro particular do Nordeste e o local se transformou em base de atividade extracurricular em ações de educação ambiental para os estudantes da região.

Resíduo zero: unidade recicla todo o lixo e água usados no processo

No dia em que 1 Papo Reto visitou a fábrica, a criançada estava por lá. Olhares atentos às explicações dos biólogos e dos gestores das diversas seções do complexo. Porém, tão importante quanto as iniciativas na área ambiental, que de resto replica as exitosas receitas do Complexo Industrial da Fiat do Brasil, em Betim (MG), é o que acontece no chamado “chão da fábrica”. Em todos os departamentos, inclusive no Centro de Pesquisa no qual foi “validado” o Cronos, o novo modelo da Fiat que começa a ser fabricado na unidade de Córdoba, na Argentina.

Dependendo do lado que se acessa a fábrica da Jeep em Goiana, tem-se a impressão de estar num filme futurista. Em diversas etapas do processo, um ou dois operários, se tanto, cuidam de todo processo. Nestas áreas, o serviço pesado fica a cargo dos 700 robôs. A profusão de maquinários e de processos produtivos inovadores, em todos os quesitos, integram a moderna cartilha da indústria 4.0 – um conceito ainda novo por aqui, mas largamente utilizado na Europa e nos Estados Unidos. “Aqui, as máquinas e as estações de montagem se adaptam à ergonomia humana, e não o contrário”, destaca Danielle Barbosa, 30 anos, integrantes do time de manufatura.

 

SAIBA MAIS:

Sobre a fusão Fiat Chrysler 

Gestão Hídrica e de resíduos em geral

Sobre a construção da fábrica da Jeep

Sobre a invasão holandesa e o ciclo da cana de açúcar em Pernambuco  

 

* O jornalista viajou para Pernambuco a convite da FCA do Brasil.

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