Os caminhos da computação afetiva

Nas décadas de 1950 e 1960, o escritor e professor de bioquímica Isaac Asimov e o diretor Stanley Kubrick já delineavam um futuro aflitivo, para se dizer o mínimo, no qual as máquinas seriam parte integrante de nossas vidas. Por meio de clássicos como o livro Eu Robô e o filme 2001 – uma odisseia no espaço, respectivamente, eles alertavam sobre os cuidados/perigos da interação homem-máquina e a possibilidade de os cérebros eletrônicos evoluírem a um ponto tal que poderiam expressar sentimentos (raiva, amor, desprezo e ódio). A partir daí o caminho estaria aberto para que agissem conforme sua conveniência.

Na abertura do festival BlastU, realizado em São Paulo, na última semana, uma das palestras nos conectava com este universo distópico. A cada exemplo citado pelo publicitário português Fred Saldanha, diretor-executivo de criação da agência Huge Brooklyn, de Nova York, a plateia se sentia cada vez mais dentro de um desses clássicos da ficção científica do passado. Contudo, muita coisa que ele mostra no telão dialoga com produções cinematográficas recentes, como a perturbadora série Black Mirror, em cartaz na Netflix, e o filme Ex Machina: instinto artificial, do diretor britânico Alex Garland, e também com o cotidiano de muitos bípedes.

“Num determinado dia eu acordei ao som de `Parabéns pra você´ cantado pelo Google Home, minha assistente pessoal”, conta. “Ela me felicitou pelo meu aniversário antes da minha mulher!”.

Brincadeiras à parte, é certo que os dispositivos dotados de Inteligência Artificial já fazem parte de nossas vidas. Estão no automóvel que dirigimos (um dos modelos Volvo possui um cérebro eletrônico que faz com que o veículo não atropele pessoas), na medicina (o aplicativo Beyond Verbal é capaz de analisar o estado de saúde e o humor das pessoas a partir da voz, enquanto o MultiSense avalia o quadro psicológico de uma pessoa, por leitura facial) e em boa parte dos gadgets com os quais acreditamos ser indispensáveis à nossa existência.

De acordo com Fred, as vendas dos assistentes pessoais Alexa, da Amazon, e Google Home, já atingiram oito milhões de unidades. Volume expressivo em se tratando de gadgets ainda focados em nichos de consumidores. “O mercado de software para integração de equipamentos em reconhecimento emocional deve atingir a marca de US$ 36,7 bilhões, em termos globais, em 2021”, diz.

A expectativa favorável leva em conta o que ele classifica de “verdadeira corrida” para ver quem vai dominar, primeiro, esse setor. Uma das barreiras é a questão da interação pessoa-máquina, que está se tornando um novo objeto de estudo e pesquisa, batizado de Computação Afetiva. Algumas descobertas já começam a indicar caminhos. Uma delas é que a interação a partir da voz confere um caráter “mais íntimo” na relação entre as partes.

Trata-se, de acordo com o publicitário, de uma oportunidade para os gestores de empresas humanizarem ainda mais as marcas que dirigem. “Para que isso dê resultados temos de estabelecer uma conexão mais profunda com as pessoas”, argumenta. “Por isso, temos de aplicar a psicologia, também na hora de construir websites e desenvolver produtos e serviços, sabendo que estaremos interagindo com pessoas”. Segundo o diretor da agência Huge Brooklyn, se as marcas têm de assumir cada vez mais um perfil humano, devem se inspirar nos seres humanos que são referência em matéria de valores.

Resumo dos 40 minutos que passarão num átimo de segundo: entre a ficção e a realidade, sorte nossa que o mundo que se delineia à nossa frente ao menos não lembra o cotidiano sombrio de Blade Runner e O Vingador do Futuro. Pelo menos não até agora.

 

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