Pano para manga, para calça, para jaqueta…

No mundo das startups se costuma dizer que um negócio só se justifica se ele “resolver uma dor”. A cenógrafa e figurinista Lu Bueno, 47 anos, descobriu dentro de sua própria casa “uma dor” a ser solucionada, a partir de um problema pessoal. “Um dia me dei conta de que possuía 800 quilos de tecidos enfiados em gavetas e armários”, conta. Mais do que apenas perplexidade, a constatação serviu de mote para uma grande reflexão. Afinal, se em 25 anos de trabalho como cenógrafa free lancer ela acumulou tanto tecido, o que dizer dos milhares de pequenas, médias e grandes confecções espalhadas pelo país.

Em linhas gerais, foi assim que surgiu, em 2013, o Banco de Tecido, empresa social baseada em São Paulo e cuja moeda é a sustentabilidade plena. Isso se dá por meio da incorporação dos retalhos que sobram do desenvolvimento de coleções-piloto e também da produção convencional. Em geral, boa parte deste material acabaria sendo confinada a depósitos ou enviados para aterros sanitários ou mesmo lixões. “O impacto do descarte destes produtos no meio ambiente é tremendo”, diz. “Especialmente quando lembramos que cerca de 70% deles são feitos com fibras sintéticas, derivadas de petróleo”.

O Banco atua em três dimensões. A primeira delas é o serviço de descarte correto para as tecelagens, além da gestão de resíduos das confecções. Outra é o “depósito/aplicação” de retalhos. Exemplo: quem chega com 10 kg de tecido recebe um crédito de 75% do montante e pode utilizá-lo para trocar por outras peças. Os 25% restantes ficam como comissão para o Banco. A terceira é a venda direta para pequenas empresas e profissionais autônomos. Neste caso, o custo é de R$ 35, por quilo, independentemente do tipo: algodão, seda, jeans, nylon.

Hoje, o Banco possui quatro “agências”: duas em São Paulo, uma Florianópolis e em Curitiba. Até o final do ano deverão ser abertas mais três: em Belo Horizonte, em Salvador e em Porto Alegre. “Apenas neste ano já recebi nove consultas de interessados em franquear nossa marca”, conta Lu. “Mas minha opção é que os parceiros atuem dentro da lógica da economia compartilhada e não no modelo de franquia convencional”.

Até a aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), a partir da lei 12.305/2010, a logística reversa (instrumento que responsabiliza o fabricante pelo destino final de seus produtos) não era um assunto corrente no Brasil. Especialmente no setor da moda que, infelizmente, ainda convive com acusações de trabalho análogo à escravidão, entre outras irregularidades. “Os integrantes da cadeia de produção têxtil não sabem o nível de seu desperdício”.

(a partir da esq.) Diego Reeberg, Damaris Adamucci, Lu Bueno e Pupo Neto

De certa forma, se pode dizer que a maior vigilância do legislador e da sociedade acabou ajudando na ampliação da consciência ambiental.  Neste ponto, surge uma questão. No dia em que todas as empresas do setor aprimorarem seus sistemas de compras de matéria prima, as sobras deixarão de existir, inviabilizando o trabalho do Banco de Tecido, certo? “É por isso que este trabalho é tão lindo”, destacou a empreendedora.

Lu integrou a roda de conversa O que é meu é seu: compartilhando para impulsionar a economia, ocorrida na edição 2017 do Festival Path, realizado no início de maio, em São Paulo. O debate contou com a participação de representantes de outras empresas e organizações, cujo modelo de negócio e de atuação está assentado na economia circular: Pupo Neto, diretor de marketing da OLX Brasil, Damaris Adamucci, cofundadora da ONG Trocaí, Diego Boerin Reeberg, VP de comunidade do Catarse.

 

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