Reciclando destinos e o planeta

Em meados de 1997, Roberto Laureano da Rocha, então com 23 anos, recebeu numa mesma semana duas notícias. A boa era que ele iria ser pai. A ruim foi a carta de demissão na empresa em que trabalhava como ajudante geral. Para variar, a situação da economia do país não estava das melhores. Por conta disso, ele demorou a se reinserir no mercado de trabalho. Deixou currículos em diversas empresas e nada. Foi aí que ele resolveu radicalizar. Arrumou uma carroça e foi catar objetos recicláveis pelas ruas de Poá, cidade-dormitório da Região Metropolitana de São Paulo. “Não tive escolha. Era catar papelão e latinhas pelas ruas ou me desviar do caminho”, diz.

Vinte anos depois, na manhã de 4 de outubro, num espaço de eventos no Jardim Paulistano, área nobre da Zona Sudoeste da cidade, Roberto se vê diante de uma plateia de jornalistas e empresários. Ladeado por dois executivos: um da Ambev e outro da Coca-Cola, ele manda a modéstia às favas e assume seu protagonismo no anúncio de lançamento do programa Reciclar pelo Brasil. “Os catadores conseguiram a proeza de juntar a Coca-Cola e a Ambev”, dispara, com indisfarçável ar de orgulho.

De fato, o papel de Roberto será relevante. É que caberá à Associação Nacional dos Catadores e Catadoras de Materiais Recicláveis (ANCAT), presidida por ele, liderar “para fora” as ações previstas na plataforma. De acordo com os executivos, a ideia é ganhar escala e ampliar os recursos aplicados na atividade-fim, a partir da eliminação de estruturas redundantes. “Continuaremos atuando de forma independente, mas somando esforços para aumentar o volume de resíduos sólidos que entram na cadeia da reciclagem”, explica Pedro Rios, vice-presidente de relações corporativas da Coca-Cola Brasil.

Roberto, da ANCAT e da Cooperativa CRUMA

A expectativa é que a união das ações permita um incremento de até 25% nos investimentos feitos nas recicladoras que aderirem à plataforma. Após um ano de costuras e negociações, o programa está largando com 110 cooperativas. No total, existem cerca de mil entidades do tipo, no Brasil. “Meu sonho é trazer mais empresas para este processo, abrindo espaço para que novas cooperativas possam se beneficiar”, destaca Pedro Mariani, vice-presidente de relações corporativas e jurídico da Ambev. “Acredito muito no trabalho em rede”.

E não se trata apenas de discurso. A Ambev lidera um grupo de empresas que atuam na promoção de segurança viária em São Paulo e no Distrito Federal. Além disso, dissemina conhecimento técnico sobre redução de consumo de água, por meio da plataforma SAVEh (Sistema de Autoavaliação da Eficiência Hídrica).

Mas o nosso foco, neste momento, é o exército de profissionais de reciclagem liderado pelo paulista Roberto, que impressiona não apenas pela desenvoltura ao explicar suas ideias, como também pela visão que tem da atividade na qual atua. “Antes de mais nada é preciso deixar claro que sou um catador de materiais recicláveis!”. A afirmação tem por objetivo quebrar um pouco do preconceito contra a atividade e as pessoas que nela atuam.

Além de presidir a ANCAT, ele dá expediente diariamente na Cooperativa de Reciclagem Unidos pelo Meio Ambiente (CRUMA), que reúne 50 profissionais da reciclagem. Também encontra tempo para prestar consultoria sobre o tema. Cada um dos integrantes da CRUMA embolsa cerca de R$ 1,6 mil por mês. A retirada depende do ritmo e da qualidade da coleta, além da cotação de cada item: papel, papelão, latas de alumínio, entre outros, no mercado.

A plataforma lançada pela Ambev e a Coca-Cola representa uma oportunidade de ampliação de ganhos para os sócios de Roberto e outros tantos profissionais do setor. “Esperamos que venham novas parcerias para qualificação, compra de equipamentos e regularização jurídica de todos que atuam na cadeia”, diz.

Na ribalta

O ritmo de trabalho fez com que ele abandonasse uma de suas paixões de mocidade: o hip hop. “Cheguei a integrar o movimento, mas tive de sair”, conta. Seu palco, agora, é a ponte que faz entre os recicladores e o mundo corporativo. É neste contexto que surgem convites inusitados, como o de carregar a Tocha Olímpica. Nesta jornada de 20 anos, a única lamentação de Roberto é o fato de não ter conseguido ingressar na faculdade de direito. Que nem chegou a começar por falta de tempo e recursos.

A paternidade precoce, aos 23 anos, e a lida diária numa profissão extenuante e insalubre deixaram poucas marcas em seu semblante, onde o que se destaca é o sorriso largo e afetuoso. Especialmente quando fala do primogênito Celso, hoje com 23 anos, que trabalha numa das estações de triagem da CRUMA e que acaba de lhe dar um netinho. Ah, Roberto e Adriana ainda cuidam de outros dois rebentos: Maria Vitória, 7 anos, e Maria Clara, 6 anos.

 

SAIBA MAIS:

Sobre a reciclagem no Brasil

Programa de PET retornável da Coca-Cola

A fábrica de vidros da Abev

Legenda da foto que abre a reportagem: (a partir da esq.) Mariani, Roberto e Rios

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