Tá bom. Mas ainda pode melhorar

Os números do Festival Internacional de Jazz de Montreal (FIJM), que encerrou sua 38ª edição neste sábado (8), dão a exata noção da grandiosidade do evento: dez dias, aproximadamente três mil músicos e 500 shows espalhados por cinco palcos ao ar livre, com concertos gratuitos, mais o Complexo Desjardins, um shopping que, igualmente, oferece programação de graça. Há ainda concertos pagos em mais de 10 salas, que vão desde antigos cabarés hoje transformados em espaços para shows – como o Club Soda – até pequenos clubes de jazz da cidade, incluídos no roteiro. O público estimado é de dois milhões de pessoas. É o maior festival de Jazz do mundo, patrocinado majoritariamente por duas grandes empresas: o TD Bank e a mineradora Rio Tinto.

O FIJM é parte da animada programação de verão da cidade de Montreal, província de Quebec, no Canadá. Com uma estrutura grandiosa, é considerado um evento modelo em sustentabilidade – embora ainda não cuide das emissões de GEEs dos dez dias de festa. Antes dele acontecem as Francofolias – série de shows e concertos que celebram a música francófona (10 dias). Depois, o Nuits D’Afrique, um festival de música africana (13 dias durante o mês de julho). As Francofolias e o FIJM compartilham parte do material e da infraestrutura desde 2010, quando as primeiras passaram a acontecer no início de junho, e não mais entre julho e agosto.  De acordo com a produção do evento, essa mudança reduziu em 9% a necessidade de produção de materiais.

Desde o início dos anos 2000, o FIJM vem tentando melhorar seus números na gestão do lixo. A taxa de recuperação de resíduos passou de 24%, em 2004, para 61%, em 2016. Hoje, o festival recicla cerca de 2/3 da madeira que consome, e diminuiu severamente a taxa de lixo queimado entre 2003 (5,6 ton) e 2016 (1,8 ton). A distância entre os cestos de lixo colocados na área do festival  – sempre uma dupla de cestos, para o lixo reciclável e o não reciclável – não é maior do que 12 metros.

Mikaël, vice-presidente do Festival

Mikaël Frascadore, vice-presidente de produção do FIJM, falou para o 1 Papo Reto sobre os desafios de fazer com que um evento dessa magnitude tenha menos impacto a cada ano.

O FIJM tem a fama de ser um dos eventos mais sustentáveis do mundo, no gênero. Que tipo de iniciativas vocês têm tomado neste sentido?

Em primeiro lugar, reciclamos tudo. De embalagens de alumínio, passando por madeira e banners. Tudo é reciclado e reusado. Os banners são enviados a uma pequena fábrica que deles faz carteiras e bolsas que depois são vendidas. Nós temos uma loja na qual comercializamos acessórios do festival, e todo ano reusamos tudo. Também temos cafeterias e tudo o que sai dali vira composto orgânico.

Quantas pessoas trabalham na equipe de limpeza?

São 35 durante a noite e 11 durante o dia. No festival inteiro, em todas as áreas, trabalham cerca de 1,2 mil pessoas.

Vocês usam trabalho voluntário?

Não, são todos pagos pelo serviço.

Vocês recrutam estudantes para trabalhar no evento?

Sim, toda a equipe de recepção, de wellcome (receptivo) é composta por estudantes. Cerca de 300 a 400 estudantes.

 Como vocês os escolhem?

Em meados de fevereiro ou março nós divulgamos as ofertas de trabalho em universidades, escolas técnicas e afins, e os selecionamos, em primeiro lugar, pelas habilidades de comunicação, pelo interesse por música, evidentemente, e também pelo interesse em trabalhar com o público. São os três requisitos básicos.

Eles são treinados? Caso positivo, por quanto tempo?

Sim, nós os treinamos. O pessoal da limpeza recebe treinamento para usar os equipamentos necessários. Já o staff de recepção tem um treinamento de cerca de 12 horas.

Vocês estão preocupados em neutralizar as emissões de carbono do evento?

Naturalmente temos consciência disso e estamos muito empenhados em só usar, por exemplo, na parte técnica, sistemas LED para a iluminação. Não temos geradores a diesel. A energia toda que usamos é produzida pela Hydro-Québec, uma central hidrelétrica.

Mas e se faltar energia, o que fazem?

Nós confiamos no sistema. Não temos geradores.

Já aconteceu alguma vez?

Não, nunca aconteceu. Uma única vez houve problema em uma conexão, em um local, mas foi algo pontual. Nunca tivemos falta de energia. O sistema aqui é muito estável.

Quantas toneladas de lixo o evento produz?

Muito, depende do ano. Está caindo ano a ano. Em 2002, por exemplo, entre o lixo que foi recuperado e o que foi queimado, foram mais de sete toneladas, sendo que a taxa de recuperação foi de apenas 27%. No ano passado, entre o lixo recuperado para reciclagem e o enviado para queima, foram aproximadamente cinco toneladas, mas a taxa de recuperação foi de 61%. Como eu disse, a companhia de gerenciamento de lixo vende quase tudo, exceto, é claro, o que não pode ser vendido. Mas plástico, alumínio, madeira, tudo o que pode ser reciclado é mandado para as companhias de reciclagem especializadas em cada segmento.

São mais ou menos 3 mil músicos. Vocês se preocupam com as emissões de GEEs relacionadas ao transporte desses músicos, a suas viagens, e mesmo as relacionadas aos concertos propriamente ditos?

Nos preocupamos, mas não há muitas ações nesse sentido, ainda. É claro que procuramos colocá-los todos em um único transporte quando vamos pegá-los e levá-los ao aeroporto, por exemplo. A maioria deles vem para a área do festival andando, porque os hotéis em que os hospedamos são muito próximos de onde se apresentam. Mas, é claro, boa parte deles vem de outros países, vem de longe, então precisamos usar aviões. Estamos preocupados, sim. Uma das nossas intenções, mais para a frente, seria usar transporte local elétrico, por exemplo. A empresa local de transportes está comprando ônibus elétricos, então para o futuro, quem sabe, poderia ser uma maneira de minimizar essas emissões de transportes.

Equipe de produção da edição de 2017/ Foto: Frédérique Ménard-Aubin (divulgação)

Vocês usam sistemas alternativos/renováveis de geração de energia, como placas de energia fotovoltaica ou mesmo sistemas eólicos em algum estande ou instalação?

Há alguns anos, começamos a estudar o uso de energia solar para alimentar nossos palcos. Mas o problema é que não é estável. E a voltagem não é alta o suficiente para manter os palcos funcionando, com iluminação, sistema de som… Estamos trabalhando em algo assim para alimentar pontos que demandem menos energia, como os quiosques de informação, pequenos aparelhos de TV, a luz dos food trucks que vendem cachorro quente e comida, recarga de celulares e computadores…mas ainda não foi feito.

Vocês têm muitos parceiros para colocar o festival na rua. Ao escolhê-los vocês se preocupam em saber se eles também estão atentos a questões de sustentabilidade?

É uma ótima questão, mas não, não há links entre a maneira como os escolhemos e as questões de sustentabilidade. Eu adoraria que acontecesse, mas não acontece. Os maiores parceiros, como TD Bank e a Rio Tinto, nossos patrocinadores, são parceiros de muitos anos já. Agora, quanto aos parceiros que trabalham com comida, nós exigimos que tudo o que usam – talheres, pratos, pacotes, embalagens – seja material passível de reciclagem. O óleo que usam para fritura, a água suja que têm de jogar fora, tudo isso tem de ser gerenciado da maneira mais sustentável possível. E eles também não usam geradores; usam a energia do sistema.

E quanto à água?

Todos as pessoas que trabalham no festival consomem água filtrada do sistema de fornecimento de água da cidade. Não há garrafinhas de plástico. Cada um deles recebe uma garrafa no início do evento e vai enchendo conforme consome. Nossa água é limpa, nós temos muita sorte. Em todo lugar em Quebec, incluindo Montreal, a água é potável. O que torna nossa tarefa mais fácil.

Qual é o maior desafio de tornar esse evento o mais sustentável possível?

O maior desafio é ter todo mundo trabalhando na mesma direção, os parceiros, os patrocinadores, porque cada um deles têm objetivos diferentes ao participar ou patrocinar o evento. Há um custo para tornar o evento mais verde, então, é claro, se tivéssemos mais ajuda das autoridades e do governo para torná-lo mais sustentável, isso seria muito bem-vindo.

Vocês não têm essa ajuda?

Temos alguma ajuda, é claro. Mas, por exemplo: se quisermos transformar nossos quiosques de informação em unidades movidas a energia solar, vamos precisar de parceiros para fazer isso acontecer. Estamos falando de dinheiro basicamente.

Quanto vocês gastam hoje em dia? Qual o orçamento do evento?

Não tenho esses números.

Vocês estão realizando o evento há 38 anos. Sempre tiveram a preocupação de fazer um evento com pouco impacto ou é uma coisa nova?

Nos últimos 15 anos essa preocupação apareceu e nos últimos cinco anos, sempre que pensamos em algo, que planejamos algo, nós pensamos em como podemos reutilizar, como podemos usar material mais durável que possa ser utilizado por mais de um ano, como podemos usar material mais friendly, mais verde.

Vocês têm uma equipe especificamente para pensar nessas coisas?

Temos uma pequena equipe de cinco pessoas.

 

 

Texto: Karina Nini, de Montreal, especial para o portal 1 Papo Reto

Foto de abertura desta reportagem: Benoit Russeau/divulgação
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