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Transformações em pequenas doses

Por Rosenildo Ferreira, para COALIZÃO VERDE  (1 Papo Reto, Cenário Agro e Neo Mondo)

Tudo que se refere a Nestlé assume proporções superlativas. E não se trata de exagero. Com vendas globais beirando os US$ 100 bilhões, a multinacional suíça é a maior indústria de alimentos do mundo. Sua gama de produtos inclui cereais matinais, alimentos congelados, ração animal, achocolatados, papinhas para bebês, cafés e bebidas lácteas comercializados em 194 países. No Brasil, o gigantismo também se repete. Prova disso é que suas marcas estão nas geladeiras, despensas e mesas de 99% das residências, de acordo com a consultoria Kantar Worldpanel. Para dar conta da demanda, a empresa possui 31 unidades industriais, onde atuam 200 mil trabalhadores, fazendo do país uma das principais alavancas de crescimento global da Nestlé.

Um detalhe curioso é que uma parte expressiva deste gigantismo depende de estruturas pequenas (às vezes diminutas), especialmente quando se trata de produtos lácteos. Para coletar cinco milhões de litros de leite por dia, processados em nove fábricas e três postos de resfriamento, a Nestlé conta com 13,5 mil fornecedores diretos e indiretos, dos quais uma parte expressiva é formada por agricultores de pequeno porte. São empreendedores como a família Erig, que possui 36 hectares, entre próprios e arrendados, em Victor Graeff, município distante 63 Km Passo Fundo, a cidade polo da região noroeste do Rio Grande do Sul.

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Família Erig (Andrea, Douglas e Tales) produção consciente

É na área quase contígua à casa simples, mas bastante aconchegante e que parece ter saído de um romance arcadista, do século XVIII, que eles garantem o sustento. Douglas, o patriarca, conta que o trabalho começa cedo: às 6h30, ele sai da cama e depois de um rápido café ele vai com o filho Tales e a mulher Andreia juntar a vacada espalhada no pasto. São 41 animais em fase de lactação que garantem uma produção de 30 mil litros por mês. “Hoje, somos um dos 10 maiores da região”, diz ele, com indisfarçável orgulho.

O jeito afável e o carinho com o qual realiza a atividade acabaram rendendo ao pequeno produtor rural um convite inusitado: Douglas é garoto-propaganda de uma das campanhas da Nestlé. “Se a gente quer um leite bom para nossa família tem de produzir com qualidade para todos”, diz. É neste ponto que entra um dos mais ambiciosos projetos da multinacional suíça, aqui no Brasil.

Batizado de Boas Práticas na Fazenda, o programa reúne um arsenal de regras, normas e práticas produtivas que devem ser seguidas pelo agricultor. A contrapartida é o pagamento de um prêmio pela qualidade do produto. “Apenas nos últimos cinco anos nós investimos R$ 140 milhões em bonificações relacionadas ao programa”, conta Rodrigo Lopes, gerente de marketing de bebidas Nestlé. Nesta bolada estão computados os gastos com o melhoramento genético do rebanho, por meio da transferência de embriões e de doses de sêmen.

Mas para produzir um leite tão bom quando o vendido no exigente mercado europeu, a subsidiária foi além do trato do plantel dos parceiros. Para isso, lançou o programa Melhores Práticas Ambientais que aos poucos vai recebendo a adesão dos pecuaristas. Em linhas gerais, o projeto exige que eles instalem sistemas de captação de água da chuva que depois de passar pelo aquecedor solar é usada no processo de higienização dos materiais de ordenha e limpeza do local. Os dejetos produzidos pela vacada também são tratados para se converter em adubo para as culturas existentes na propriedade.

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Eunício (de boné) e João apostam na diversificação

Além da família Erig o clã Schneider, cuja fazenda de 58 hectares está situada no povoado de Posse Serrito, também na pequena, porém charmosa Victor Graeff, aderiu ao novo programa da Nestlé. João Schneider toca a propriedade em parceria com os irmãos Eunício e Rogério; além do sobrinho Bruno, estudante de agronomia. Faz dois anos que eles se integraram à relação de fornecedores da multinacional suíça. Neste período, o sistema de produção de leite sofreu uma guinada de 180 graus.

“Já vínhamos executando melhorias desde 2010, mas acabamos intensificando as ações para viabilizar o aumento da produção”, explica Eunício, responsável pela ordenha mecânica. Uma dessas providências foi a construção de um novo galpão, em local mais elevado, e mais distante da nascente de água da propriedade, onde produzem soja. Outra fonte de renda são os 300 pés de nogueiras-pecã, cuja noz é bastante valorizada no mercado. “Apesar de recebermos um bom valor pelo leite, é importante diversificar os negócios”, destaca João, enquanto ajeita a aba de seu indefectível chapéu no estilo Indiana Jones.

Apesar do grande número de pessoas na área do galpão, as vacas estavam tranquilas. Também pudera, após passarem pelo setor de ordenha mecânica elas podiam se acomodar em baias onde era servido um lauto banquete, em coxos individuais. “É a recompensa delas pela alta produtividade”, brinca Eunício.

   

  • O jornalista Rosenildo Gomes Ferreira viajou a Victor Graeff (RS) a convite da Nestlé Brasil

 

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