Um tatu-bola ameaçado e muitas promessas

O que era para ser apenas um reencontro de dois amigos pode, nos próximos dias, se tornar o primeiro parque estadual exclusivo do tatu-bola, o mascote da Copa do Mundo 2014. É o que esperam os professores José Alves de Siqueira Filho e René Geraldo Cordeiro Silva Junior, do campus de Petrolina da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf). Seria uma reparação. A duas semanas da Copa, a espécie que ganhou fama e mídia não recebeu em troca nada em prol de sua preservação, exceto promessas, planos e reuniões.

Mas vamos à história da dupla de professores.

Apreciadores da biodiversidade da Caatinga, René e Zé Alves, como é conhecido, ficaram um tempo sem se ver. Professores das áreas de veterinária e biologia, respectivamente, os amigos se  reencontrarem no campus da Univasf, no Centro de Recuperação de Áreas Degradadas da Caatinga (Crad).

Um dia, Zé Alves contou a René da existência de uma área de 70 mil hectares, entre os municípios de Lagoa Grande e Santa Maria da Boa Vista, em Pernambuco.

Distante 50 quilômetros de Petrolina, o local é rico em fauna e flora: tatus, veados, mocós, preás, uma infinidade de répteis e de aves, além de juazeiros, umbuzeiros, umburanas. O lugar pertence ao estado de Pernambuco, e hoje contempla assentamentos realizados pelo Incra. Toda essa riqueza que salta aos olhos dos pesquisadores, porém, está ameaçada.

Professor José Alves: pesquisa de campo no local onde idealiza parque para o tatu-bola
Professor Zé Alves: pesquisa de campo no local onde idealiza parque para o tatu-bola

Os assentados acabaram desmatando muito o entorno e caçam os animais. “Um morador tem uma horta orgânica, mas a maioria lá desmata. Há uma escola também, mas é tudo muito precário. A merenda é macarrão com salsicha, o banheiro é ruim”, conta René. “Se não houver preservação, em 10 anos não vai existir mais nada.”

Cadê o tatu?

Um trabalho de campo feito pelos dois docentes da Univasf revelou o potencial daquilo tudo se tornar um parque. “Perguntamos aos moradores sobre o tatu. Eles diziam: ‘Tinha o tatu-bola, o fulano caçava, mas hoje não estamos encontrando'”, lembra René. O desaparecimento do Tolypeutes tricinctus (nome da espécie) fez soar o alarme.

É sabido que essa espécie, existente na Caatinga e em algumas partes do Cerrado, é considerada na lista internacional da IUCN como “vulnerável”. De acordo com Rodrigo Castro, secretário executivo da Associação Caatinga, até o final do ano ela será alçada à categoria “em perigo”, na lista de espécies ameaçadas da fauna brasileira.

Tendo tudo isso em vista, a dupla de amigos pensou: por que não aproveitar o gancho do mascote da Copa, o Fuleco (um tatu-bola), e conseguir recursos para um parque?

Em tempo recorde, colocaram a mão na massa: entraram em contato com o pessoal da Associação Caatinga, responsável pela campanha que alçou o tatu a mascote da Copa, elaboraram um projeto para o parque, que envolve ação educativa, trabalho de campo e formação de guias, procuraram o secretário do Meio Ambiente do Estado de Pernambuco e postaram abaixo-assinado online mobilizando pessoas.

Finalmente, nesta sexta-feira, 30/5, vão apresentar o projeto ao Conselho Estadual do Meio Ambiente de Pernambuco.

A cruzada que inclui Fifa, Inpi, Suíça…

Um parêntesis é necessário antes de contar o desfecho da história da dupla de professores da Univasf.

Rodrigo Castro, secretário executivo da Associação Caatinga, está à frente de um tipo de “cruzada”, como ele mesmo denomina, em defesa do tatu-bola. Há tempos. O bicho ganhou visibilidade com a campanha da associação para torná-lo mascote da Copa.

Mas, até agora, foi só visibilidade. O pessoal da Associação Caatinga fez uma porção de propostas à Federação Internacional de Futebol (Fifa) e, a duas semanas do pontapé incial dos jogos, na Arena Corinthians, nada de concreto vingou.

René e o bichinho em extinção ("não é o Fuleco!")
René e o bichinho em extinção (“não é o Fuleco!”)

A Fifa chegou a pedir, em 2012, para que a associação retirasse do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (Inpi) todos os registros de marcas relacionadas ao tatu-bola. Contrariada, a associação acatou, até por temer processos judiciais no futuro. Em troca, solicitaram uma reunião com Jérôme Valcke, o todo-poderoso secretário geral da instituição – o que aconteceu em janeiro do ano passado. Na ocasião, foi apresentado um projeto para a preservação da espécie.

“Ele (Valcke) nos passou o contato de um gerente de responsabilidade social da Fifa, que fica em Zurich, na Suíça”, contou Rodrigo. Até hoje, nenhuma das sugestões foi acatada pelo tal gerente. Entre elas, a de reverter parte da venda dos Fulecos para a preservação da espécie. Ou mesmo que o tatu, em material promocional, falasse de si próprio e que está sob ameaça de extinção. “Se nada for feito ele será extinto em 50 anos.”

Apenas um dos patrocinadores da Copa, a Continental Pneus do Brasil, tem apoiado a causa.

Mas, para Rodrigo, dirigente da Associação Caatinga, o que passou passou. “A Copa vai embora, e a preservação fica.”

Parque do Tatu: de onde vem o dinheiro?

Voltando à história da dupla de professores da Univasf. Existe um Plano de Ação Nacional para a Conservação do Tatu-bola. Foi feito com a ajuda de todos os pesquisadores citados neste texto e referendado com a assinatura do ICMBio, órgão ligado ao Ministério do Meio Ambiente que cuida de biodiversidade.

Prevê uma verba de R$ 6,3 milhões. Dessa verba, R$ 500 mil foram para elaborar propostas para algumas regiões, sem especificar localidades, e apenas R$ 50 mil estão, no plano, dedicados à criação do parque de Pernambuco, entre outras unidades pelo País.

Como a área entre os municípios que René e Zé Alves desejam transformar em parque é estadual, a verba terá que ser conseguida em Pernambuco. Será que sai do papel?

O secretário do Meio Ambiente do Estado de Pernambuco, Carlos André Cavalcanti, é otimista. “Quero marcar um gol socioambiental durante a Copa.” Ao ser perguntado sobre de onde virá a verba, diz que de compromissos a serem assinados (ainda não foram) resultantes da compensação ambiental de grandes empreendimentos feitos no Estado.

A cruzada de Rodrigo, René, Zé Alves e tantos outros pesquisadores para proteger o bioma da Caatinga e o tatu-bola mais parece uma novela. Rodrigo torce para que o parque estadual seja criado e acredita que será um dos poucos e bons legados socioambientais da Copa, ao lado do próprio plano aprovado pelo ICMBio.

Enquanto isso, diz o secretário executivo da Associação Caatinga: “O Fuleco acabou virando uma figura vazia. Só faz embaixadinhas, dá risadinhas e aparece nos eventos com patrocinadores.” A pergunta que fica é: será que o Fuleco vai levar mais uma bola nas costas?

 

Editado em 29/5, às 10h22.

(Visited 16 times, 1 visits today)
  • Rodrigo Garcia

    Já está levando, e o mais triste e deprimente é ver que o governo brasileiro dá a mínima para tal situação. Fifa ainda se sente dona do nome do tatu, absurdo.
    Mas enquanto houver pessoas que acreditam que a natureza deva ser preservada serão essas ações que preservarão o Tatu-bola, pois o Fuleco(alma) já foi extinta e vendida nessa “grandiosa Copa do Mundo”.

    • Boa, Rodrigo! Nos resta torcer para que o trabalho dos professores da Univasf dê resultado positivo, com a criação do parque em Pernambuco!

  • vivianni marques

    Eu apoio proteção para o tatu bola

    • Boa, Vivianni. Divulgue o texto e procure, no Avaaz, o abaixo-assinado pela criação do parque. Abs.

  • wilame Jansen

    Sexta feira, 30/04, José Alves, da UNIVASF, expôs ao CONSEMA A ideia da criação da Unidade de Conservação TATU-BOLA, em Lagoa Grande – PE. O trabalho até agora da UNIVASF impressionou o Conselho que se comprometeu em apoiar a ideia, e já estabeleceu um calendário de atividades junto à àquela Universidade.
    Vamos acompanhar.
    Wilame Jansen
    CONSEMA
    BIOMA CAATINGA

    • Gratos pelo retorno e pela atualização, Wilame. Acompanharemos daqui esta bela história em prol da preservação do tatu-bola.

  • Jamille Conduru Mendes Segatto

    Essa é uma oportunidade única e não a vejo como perdida, ainda. Nada melhor do que aproveitar as horas em que os ‘olhos’ do mundo estarão voltados para o Brasil e voltá-los um pouco mais para a Caatinga, bioma esquecido e menosprezado pelos próprios (alguns) brasileiros. A Caatinga, o tatu-bola e tantos outros representantes do semi-árido nordestino precisam ser preservados, a criação do Parque será o grande início. Parabéns aos professores e á todos os outros envolvidos!!

    • Sim, Jamille, trata-se de uma oportunidade de ouro de divulgar esta bela iniciativa de preservação da Caatinga e do tabu-bola!

  • Hellen Silva

    O tatu bola como simbolo da copa é ótimo, mas, são poucos os que sabem a real história do que vem acontecendo com essa espécie. A preservação do hábitat dessa espécie (caatinga) trará a oportunidade de muitos, inclusive eu, poder apreciar a beleza do tatu bola e muitas outras espécies que hoje em dia já não se vê mais.