Para além da “Faixa De Gaza”

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“Meu sonho é ver um monte de caminhões encostar naquele portão ali, e saírem carregados de frutas, verduras e legumes”

Essa frase ecoou pelos meus ouvidos ao longo do final de semana no qual desembarquei na cidade do Rio de Janeiro para conversar com o engenheiro agrônomo Júlio Cesar Barros, idealizador do programa Hortas Cariocas, ligado à Secretária do Meio ambiente da Prefeitura do Rio de Janeiro. Trata-se de um programa destinado a melhorar a segurança alimentar de quem vive em favelas e outras regiões carentes, além de promover alimentação saudável nas escolas. Sem contar a renda gerada no processo.

O Projeto está rodando há quase 10 anos e é um exemplo pronto e acabado de política pública que coloca o cidadão como agente de sua própria transformação. A visita começou pela Favela de Manguinhos, onde fica situada a maior das 41 hortas existentes que compõem o projeto. “Nos deram o título de a maior horta comunitária da América Latina”, diz o orgulhoso Júlio Cesar. “Não sei se é verdade, mas ficamos contentes com ele.”

Mas antes de transitar uns 50 metros pela av. Itaoca, também conhecida como Faixa de Gaza, pela quantidade de tiroteios que outrora aconteceram por lá!, minha jornada rumo à Cidade Maravilhosa foi cercada de percalços. A começar pelo fato de que perdi a hora do voo e, consequentemente, a passagem adquirida com milhas aéreas. A solução foi morrer em milhares de reais para comprar outra.

Desembarquei no aeroporto internacional Antonio Carlos Jobim, equivocadamente chamado de Galeão, que é o nome da Base Aérea que fica ao lado, e segui para a locadora. Mais uma vez, acabei dando sorte. O carrinho básico que e havia reservado foi passado adiante, e tive de me contentar com um modelo mais equipado. Para quem conhece o calor que faz no Rio, especialmente na árida Zona Norte, sabe que um ar condicionado é sempre bem-vindo.

Segui para a Praça Tiradentes, local histórico aonde foi morto o herói da Inconfidência Mineira, mas que ostenta uma portentosa estátua de D. Pedro I a cavalo. Uma obra tão bela quanto ignorada pelos passantes. A partir daí, fiquei à espera de Júlio Cesar, meu cicerone. Ele chegou por volta das 11h a bordo de uma picape branca, acompanhado de Orlando de Almeida Ribeiro, mais conhecido como Português. Seguimos em dois carros em direção à Manguinhos.

Júlio Cesar fez o caminho mais fácil para percorrer os 20 km entre a Praça Tiradentes e o bairro da Zona Norte. Passamos pela Central do Brasil, Presidente Vargas, Praça da Bandeira, Quinta da Boa Vista, Morro da Mangueira, Benfica… Somente quando cruzei o Viaduto de Benfica é que a “ficha começou a cair”.

(Fiz esta rota anos a fio quando circulava de ônibus na avenida Suburbana rumo ao centro da cidade, na época em morei em Del Castilho, em meados da década de 1970, e fui vizinho e colega de algumas pessoas interessantes, como Jessé Gomes da Silva Filho, mais conhecido como Zeca, que depois foi rebatizado de Zeca do Pagodinho e, por fim, se tornou Zeca Pagodinho)

“Iríamos acessar a Favela de Manguinhos a partir da Faixa de Gaza”, pensei com uma leve ponta de preocupação. Nunca tive medo de entrar em comunidade. Aliás, de circular em nenhum lugar frequentado por pessoas, independentemente da classe social. O problema é que nestas regiões a possibilidade de conflitos entre a Polícia Militar do Rio, que dispensa maiores apresentações, e traficantes é sempre elevada.

É que a tal “pacificação” gerada a partir da implantação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) só existe na ficção, no discurso político de na cabeça de incautos. As favelas cariocas continuam sendo territórios conflagrados aonde o Estado só chega, em sua inteireza, com a madeira do cassetete e o aço das balas. Os poucos programas sociais ou de cidadania funcionam meramente como vitrine. “A comunidade quase sempre é deixada de lado”, queixa-se Erivaldo Lira, veterano líder comunitário de Manguinhos, que faz às vezes de nosso cicerone. Lira é dessas pessoas que têm prazer em receber. Fala com tranquilidade dos problemas e também das soluções que a comunidade vai encontrando para seu dia a dia.

Muito articulado, extremamente educado, enquanto circulamos pela unidade do Hortas Comunitárias ele é abordado por moradores que vêm tirar dúvidas, pedir conselhos e dividir preocupações. “Isso aqui hoje é uma beleza”, diz Lira apontando para o terreno ocupado pela Horta. “Antes, era um lugar ocupado por viciados em crack, área de desova de cadáveres e lixão”, emenda Julio Cesar. O líder comunitário reconhece que a UPP ajudou a melhorar o clima no local. “Sabe o que mudou, mesmo? É que, agora, não precisamos conviver com pessoas portando armas de grosso calibre e atirando a esmo”, explica. “Mas continuamos esquecidos pelo poder público.”

De fato, a coleta de lixo é quase inexistente. O único pedaço arrumado, além da horta, é um campinho de futebol, soçaite, cercado de tela de arame, gramado sintético impecável, e no qual a rapaziada disputa uma pelada todo fim de tarde. No muro, um grafite deixa claro quem é o dono do pedaço: “Não devemos nos esquecer nunca dos jovens mortos pela UPP”. A poucos metros dali, uma lona esticada na entrada de uma viela exibe uma série de produtos “indicados para curar (ou aumentar) a depressão”, como diria Falcão, vocalista de O Rappa.

Tudo isso em plena luz do dia!

A chegada da picape pilotada por Julio Cesar não chama a atenção. Mas o Logan com placa de Curitiba, pilotado por uma camarada de chapéu panamá, sim. Os olhares e a circulação de jovens sobre motocicletas se intensificaram naquele pedaço. Mas nada que me cause medo Nada tenso. Mas é impossível não sentir o ar “mais pesado” a cada olhar.

No terreno em frente ao portão do projeto começa um grande e intenso mergulho no mundo da cidadania. Ezequiel, dona Luiza, Dione, Daniele, Francisca, Ronaldo, Placidino, Juarez, Jacksandro, Ediel, Maria Francisca, Izete, Luiza (espero não ter esquecido ninguém!) formam uma espécie de comitê de recepção. Maluquinho, o vira-lata que é o mascote do projeto, também marca presença. À exceção dele, que não tem idade para trabalhar, na forma da lei!, todos estão vestidos com o uniforme do projeto e exibem um sorriso e uma amabilidade dignos de nota.

Estão acostumados a posar para fotos e para as lentes de TV e dar entrevistas para jornais e revistas. Daqui e de fora do país.  Mas como souberam que eu era o “cara do prêmio”*, ficaram bastante contentes e curiosos em se inteirar sobre o livro que eu estou escrevendo sobre empreendedorismo sustentável.  “Eu trouxe o troféu aqui e mostrei que, apesar de ter meu nome gravado, o prêmio era de todos eles”, recorda Julio Cesar.

Faço uma rápida introdução sobre o projeto e aproveito para falar do portal 1 Papo Reto, claro! O relógio voa numa velocidade impressionante. Esqueço-me do horário do almoço e só penso em degustar uma cervejinha para amenizar o calor. O pensamento, feito em voz alta, é atendido por uma das funcionárias da horta.

Despeço-me do pessoal e sigo com Julio Cesar e Lira para um bate papo. Paramos em uma dos botecos perto do campinho de grama sintética. Conversamos bastante. Lira consulta o modernoso celular, onde fica a agenda de encontros e reuniões relacionadas ao seu trabalho como líder comunitário. “Aqui em Manguinhos temos o melhor e o pior dos mundos”, filosofa. “Temos profissionais de alto nível que moram aqui até mergulhadores da Petrobras, passando por jovens músicos de sucesso, que cresceram aqui, e universitário”.

Sua maior frustração e ver que os planos de transformação do lugar em Bairro Popular, um conceito introduzido na cidade em 1982, durante o governo de Leonel Brizola, sempre esbarra na burocracia e na falta de diálogo com os agentes do poder público.

O nível etílico cresce e lembro que teria de dirigir até o hotel, e ainda encontrar forças para repassar minhas anotações de “tirar a fita” enquanto as histórias ainda estavam fresquinhas. Julio Cesar e o Português acertam comigo o roteiro da visita à horta comandada por ele no Morro da Formiga. Despeço-me e sigo para o hotel.

Dito e feito. Apesar de estar a 10 metros do teatro João Caetano, a 50 metros da Gafieira Estudantina, a 80 metros do Bar Luiz, a 300 metros dos Arcos da Lapa… decido cumprir a agenda de trabalho. Até porque, o prejuízo com a perda do bilhete fez com que o orçamento ficasse mais apertado.

*Prêmio Empreendedor Sustentável