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Nos últimos 10 anos, poucos setores passaram por transformações tão grandes como o de mídia. Especialmente em sua vertente tradicional, formada por veículos impressos: revistas e jornais. Com o interesse do público mudando na velocidade dos cliques nas redes sociais – ao sabor de like, deslike e change -, muitos jornais e revistas tiveram dificuldade de acompanhar os novos tempos e acabaram saindo de cena.

A lista é grande e inclui o Jornal da Tarde, a Folha da Tarde, o Notícias Populares, a Gazeta Mercantil e o Jornal do Brasil, apenas para citar alguns dos mais conhecidos no eixo Rio-São Paulo. Nem mesmo projetos nascidos já no auge da internet como o Brasil Econômico, comandado por um grupo português, conseguiram se firmar.

Apesar disso, a reputação e o prestígio das faculdades de comunicação continuam quase que inabalados. Uma boa amostra disso é que a proporção candidato por cada vaga na Escola de Comunicação da Universidade de São Paulo (ECA-USP) segue num patamar elevado (33,53)* superando cursos tradicionais como arquitetura (24,7), odontologia (11,26) e administração (10,02). Mas, se muitos jovens estão dispostos a produzir notícias, um contingente ainda maior anseia por consumi-las. Mas não no formato tradicional no qual é preciso pagar por isso.

Neste contexto, não deixa de ser louvável, e por que não dizer admirável, que projetos independentes como a revista Plurale completem nove anos de vida. Com tiragem de 20 mil exemplares e circulação bimestral, a publicação foi criada pelos cariocas Sônia Araripe e Carlos Franco, que acumulam passagens por algumas das mais importantes redações do país, onde escreveram sobre economia, negócios e finanças.

O primeiro número chegou às bancas em outubro de 2007. O lançamento foi em meio a uma grande festa, no Rio de Janeiro, que reuniu empresários, militantes da causa verde, políticos, jornalistas e até o comentarista esportivo, ex-árbitro de futebol e banqueiro Arnaldo Cezar Coelho (à dir. na foto acima, ao lado de Sônia). Os recursos para colocar esse projeto de pé saíram da poupança amealhada por Sônia e Franco ao longo da carreira.

Nesta entrevista, 1 Papo Reto conversa com Sônia sobre os desafios de atuar como empreendedora e jornalista num segmento especializado e que, infelizmente, ainda não faz parte do cardápio de leitura do grande público.

O que motivou você e Carlos Franco a criar a Plurale?
Trabalhamos juntos por muitos anos, na editoria de economia do Jornal do Brasil e nunca perdemos o contato. Certa vez, nos reencontramos em São Paulo: cada um estava seguindo uma trilha e justamente refletindo sobre novos rumos e desafios. Pensamos que seria mais lógico nos unirmos e lançar um só projeto. Nascia assim a Plurale, há exatos nove anos.

Na época, a internet, em geral, e as redes sociais, em especial, não tinham a força que têm hoje. Foi por isso que vocês investiram fortemente na mídia convencional?
A Plurale já nasceu como revista e site. Temos experiência com revista, jornal e mídias digitais. Por isso pensamos em um projeto que abraçasse todas estas possibilidades. A revista é mais reflexiva e com forte pegada visual de fotos e design. Gostamos disso. O site é o dia-a-dia, as notícias mesmo, complementado com as mídias sociais. A revista é bimestral, então tem um tempo diferenciado. O site é atualizado diariamente e as mídias sociais são espaços de ‘guerrilha’ para noticiar e defender boas causas em rede. Brinco nas palestras para jovens estudantes de comunicação que não somos uma mídia gigante, mas fazemos o nosso barulho ecoar em rede.

Hoje, os portais têm muito mais acessos do que as revistas conseguem reunir, em matéria de consumidores e até leitores. Como vocês trabalham as duas mídias?
São públicos e conteúdos complementares. Muitos leem só o site, outros preferem a revista em papel e um universo expressivo prefere as mídias sociais. Há também os que apreciam todas as mídias. Independentemente da plataforma, a boa notícia é que conseguimos conquistar o nosso espaço neste tipo de segmento. Recebemos mensagens de leitores do Brasil e até de fora! Outro dia, uma jovem brasileira, estudante bolsista de doutorado em Portugal, enviou um e-mail contando que uma de nossas reportagens foi superimportante para a tese dela sobre literatura e tradução! Gosto sempre, também, de citar a professora Cícera, de uma escolinha pública às margens do que sobrou da Transamazônica, no Pará. Ela leu no site uma matéria sobre educação, nos mandou uma carta tão bacana que decidimos ‘adotar’ a escola, passando a mandar sempre revistas e livros.

São nove anos de histórias relevantes. Quem é do segmento nos reconhece e valoriza o nosso trabalho. Temos conquistado prêmios, mas o grande mérito é poder atuar em rede e ser valorizado pelos leitores e o mercado empresarial e publicitário. Não é fácil. É uma trajetória que se constrói. A nossa credibilidade de vida profissional reforçou a Plurale.

Apesar de continuar no jornalismo, é evidente que sua carreira deu uma grande guinada. Como foi se reinventar após os 40 anos?
Boa pergunta. Acho que o desafio do jornalismo hoje em dia é se reinventar. Talvez eu pudesse estar feliz, trabalhando em uma grande assessoria de imprensa. Mas, ao menos naquele momento, não era o que gostaria de fazer. Depois de uma certa experiência profissional, podemos começar a escolher o que gostamos ou não de fazer. E o que eu realmente amo é escrever, editar, empoderar e transformar. Não há nada que me deixe mais emocionada e engajada do que fazer/escrever uma grande reportagem: achar o personagem, ouvir as fontes, fazer o contraditório, denunciar o que estiver errado…enfim, reportar e editar.

Percebemos que havia – e há hoje, ainda mais forte – um movimento de transformação. Com pessoas, empresas e ONGs envolvidas. Uma grande história para contar, com a sustentabilidade como fio condutor. Por isso acreditamos que havia espaço para Plurale também narrar esta mudança em curso. Aproveitamos aqui para agradecer o apoio e o carinho com que os pioneiros da Mídia Sustentável nos receberam. Como Dal Marcondes e Ana Vasconcellos, da Envolverde; Vilmar Berna, da Rebia; André Trigueiro, da TV Globo; Ricardo Voltolini, da Plataforma Sustentável, Peter Milko, da Horizonte Geográfico; Lúcia Chayb e René Capriles, da Eco21, e tantos outros amigos. Foi muito bacana! Reiteramos o valor incrível da Mídia Sustentável. Tomara que mais e mais empresas e agências percebam esta relevância!

Quais foram as reportagens marcantes nestes nove anos?
Recentemente, foi a tragédia ambiental de Mariana, que fez com que mudássemos a edição da revista impressa em dois dias! Foi um tremendo esforço de equipe. Sem falar em várias matérias em campo, como chamamos, especialmente, em lugares remotos. Acabei de voltar de mais uma viagem – das várias – para a Amazônia.

Brinco que é feito aquele slogan de comercial. Não tem preço.

Gostaria de saber se a festa de 10 anos já está sendo preparada e qual é o futuro que vocês vislumbram para o plataforma Plurale?
Estamos comemorando os nove anos e preparando, sim, a festa dos 10 anos. Sempre procurando inovar e trazer novidades para o público. Lançamos este ano a TV Plurale, uma experiência na web de pequenos vídeos com entrevistas curtas sobre a temática de sustentabilidade. Estamos sempre participando de palestras, consultorias para empresas, sem falar nas ações como voluntários na causa. Acumulamos ainda mais expertise e atuamos sempre em rede.

Sem os parceiros e apoiadores, não teríamos chegado até aqui. Alguns muito importantes. Não quero citar nomes para não correr o risco de esquecer algum. Mas basta olhar a Plurale que estão lá os parceiros! Temos ainda um time e tanto de colunistas incríveis – especializados no tema – que são colaboradores. E repórteres e correspondentes experientes e geniais, como Nícia Ribas, Isabel Capaverde, a Editora de Fotografia, Luciana Tancredo, Vivian Simonato (Comunidade Europeia), Wilberto Lima Jr (EUA), Aline Boueri (Argentina) e muitos outros. Agradecemos imensamente a parceria do Papo Reto e cumprimentamos a iniciativa do Vale do Dendê. Em rede, juntos, somos ainda mais fortes.

*Sobre relação candidato vaga na Fuvest, veja aqui.

Texto atualizado às 15h, de 15/12