Evento on-line vai debater jornalismo e novos conceitos de comunicação

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Poucos setores e atividades econômicas foram tão impactadas pelas redes sociais e as novas formas de comunicação quanto a imprensa.

Este fenômeno tem sido estudado desde meados da década de 1990, quando surgiram os mecanismos gratuitos de publicação de textos no mundo virtual, como o Blogger. No Brasil, no entanto, as redes sociais foram encaradas com um certo desdém pelos barões da imprensa que confiavam na perenidade de um modelo baseado em publicidade vinda dos órgãos públicos e grandes anunciantes privados. Afinal, seus veículos eram, até então, a única via de escoamento de informações e publicidade em larga escala.

Em maior ou menor grau, o mesmo estado de letargia podia ser visto na mídia impressa dos Estados Unidos e da Europa. A onda de mudanças exigiu reações profundas, cabendo ao The New York Times, nos Estados Unidos, e ao Financial Times, na Inglaterra, liderarem as alterações nos modelos de negócios do setor. Começando pela forma de se relacionar com seu público, especialmente a fatia mais jovem da população, nativa digital. Cobrança por conteúdo, diversidade na contratação de profissionais, opções mais baratas de assinatura etc., fizeram parte do arsenal.

Por aqui, o barateamento das ferramentas de Tecnologia da Informação e da Comunicação (TICs) fez ressurgir a mídia independente. Primeiro, com projetos liderados por veteranos jornalistas que deixaram as redações em busca de projetos autorais. Na sequência foi a vez de os portais independentes afetarem a comunicação como um todo que, aos poucos, foi deixando de ser um território exclusivo de profissionais forjados nos cursos de jornalismo e que davam expediente nas redações da grande imprensa.

É neste ponto que entraram em cena os coletivos de comunicação, dispostos a romper paradigmas e explorar um número cada vez mais diverso de linguagens. O rap e o SLAM são exemplos mais eloquentes de iniciativas de comunicação destinadas a traduzir e amplificar o que se passa nos diversos territórios, muitas vezes invisibilizados na pauta do jornalismo de mainstream.

Algumas dessas experiências de comunicação e de produção de notícias passarão pelo palco virtual do Fala! Festival de Comunicação, Cultura e Jornalismo de Causas. A iniciativa é fruto da parceria de quatro portais de notícias: Alma Preta, Ponte Jornalismo e 1 Papo Reto, baseados em SP; e Marco Zero Conteúdo, de Recife. A primeira edição do Festival acontece de sexta-feira (23/10) a domingo (25/10), e as mesas serão transmitidas pelo canal de YouTube do Sesc 24 Maio, apoiador do evento (programação completa).

O Fala! nasce da inquietação de um grupo de profissionais de comunicação e imprensa inconformados com a forma com que a mídia de mainstream aborda algumas pautas e demandas históricas da sociedade. “Essas novas mídias compõem uma esfera pública de comunicação radical, pois questionam os valores supremacistas brancos e masculinos, trazendo uma maior diversidade e pluralidade de vozes” destaca o jornalista Pedro Borges, fundador da Alma Preta, agência focada em temas da negritude. Um de seus grandes diferenciais é o fato de realizar uma cobertura sistemática do que acontece na África.

Inicialmente programado para acontecer em Salvador, de modo presencial, o evento teve de ser reestruturado e adaptado à realidade imposta pelas restrições da pandemia de COVID-19. Mesmo assim, sua essência foi mantida. Um dos fios condutores do evento, que contará com diversas intervenções artísticas, é o jornalismo de causas.

Mais que uma nomenclatura que identifica um recorte da cobertura (como o jornalismo de dados, o jornalismo cultural e o jornalismo investigativo), essa vertente se dedica ao debate, em profundidade, dos problemas estruturais que norteiam toda a sociedade. “Falamos em causas porque desejamos discutir os problemas estruturais. Puxar o fio condutor do fato, em vez de nos limitarmos aos efeitos”, explica Antonio Junião, artista gráfico e cofundador da Ponte Jornalismo.

Segundo ele, quando se fala em causas sociais, ainda existe uma certa confusão. “Muitos acreditam que privilegiamos um determinando grupo social, quando, na verdade, o que fazemos é falar de toda a sociedade.” E cada vez mais o nome do jogo é a colaboração. Além de se estruturar em coletivos, boa parte desses novos veículos da mídia independente estão apostando em parcerias intra regionais e nacionais para amplificar suas vozes e se viabilizarem economicamente.

Para o Laércio Portela, integrante da equipe de jornalistas da Marco Zero Conteúdo, o Fala! coloca em discussão o fortalecimento do jornalismo a partir da complementação de linguagens de arte, cultura e comunicações. Ao lado disso, também tem como ambição indicar saídas. “A crise do jornalismo vai além do modelo de negócio das grandes empresas. Na verdade, tão deletério quanto a queda da publicidade tem sido a falta de credibilidade do jornalismo feito pelos grandes grupos”, diz.

Muito desse fenômeno se deve ao olhar enviesado e, por vezes, preconceituoso com que jornais e emissoras de rádio e TV retratam os brasileiros da base da pirâmide econômica. “Nas décadas de 1960 e 1970, o principal foco da mídia independente era a luta pela liberdade de expressão. Hoje, os projetos autorais e de coletivos buscam romper as barreiras e o olhar preconceituoso e desqualificador em relação aos moradores das periferias”, destaca o jornalista Rosenildo Ferreira, fundador e publisher do portal 1 Papo Reto.

QUEM FAZ O FESTIVAL

Ponte Jornalismo 263x175Ponte JornalismoAlma Preta 263x175Alma PretaMarco Zero Conteudo Equipe atual 263x175Marco Zero Conteúdo

Alma Preta: cobertura objetiva que leva em consideração os marcadores de classe, raça, gênero e sexualidade ao olhar a realidade brasileira. Afinal, o cotidiano brasileiro é estruturado a partir destes pilares.

1 Papo Reto: busca discutir a sustentabilidade, a economia e o empreendedorismo de uma forma
leve e descomplicada e com respeito à diversidade racial.

Ponte Jornalismo: investe em pautas relacionadas à promoção dos direitos humanos e fiscaliza a atuação do poder judiciário em sua interlocução com a população.

Marco Zero Conteúdo: projeto desenvolvido por jornalistas ávidos por abordar as relações de poder público-privado e seus impactos na vida das pessoas.