Lucros com a preservação da Mata Atlântica

Conhecido por suas propriedades nutricionais e por seu valor energético, o açaí começou a ganhar espaço no Brasil, a partir de meados da década de 1990.

Apesar disso, já era um ingrediente constante na mesa de paraenses e maranhenses que, de diferente, têm apenas a fonte de coleta do fruto. Enquanto no Pará o açaí vem da palmeira homônima, no Maranhão e nos estados da Mata Atlântica, a fonte é a juçara.

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O problema é que esta palmeira também carrega em seu tronco outra iguaria valiosa: o palmito. E para sua extração é necessária a morte da planta. A exploração predatória fez com que a juçara entrasse na lista de espécies em extinção, gerando um efeito colateral igualmente nefasto na fauna. Isso porque seu frutos alimentam uma cadeia composta de 48 espécie de aves e 20 de mamíferos. São tucanos, jacutingas, sabiás, cotias, antas e esquilos que, ao digerir o fruto acabam trabalhando na dispersão das sementes. 

E foi para intervir de forma positiva neste ciclo que surgiu a Juçaí, em 2009, em plena Serrinha do Alambari, no município de Resende (RJ), cidade do Vale do Paraíba. A empresa, cujo carro-chefe é o açaí extraído da juçara, une preservação ambiental com a geração de renda para moradores das comunidades rurais do Espírito Santo e do Paraná.

No ano passado, o negócio recebeu um aporte, cujo montante não é revelado, de um grupo de investidores e passou a operar mais focada na construção da marca e na ampliação dos canais de distribuição. A meta para 2021 é aumentar em até sete vezes a capacidade de produção. Hoje, o Juçaí é distribuído pronto para consumo, em redes de suco, no Rio de Janeiro, além de empórios de gastronomia, como a rede Natural da Terra, de São Paulo, e nas filiais dos supermercados Carrefour e Zona Sul.

A aposta surge em meio à pandemia de COVID-19, que afetou muitos negócios, especialmente no varejo. “No nosso caso, as vendas cresceram tanto que decidimos investir no aumento da produção”, explica Bruno Correa, gerente geral da Juçaí. O portfólio inclui 17 produtos e, além do eixo Rio-São Paulo, consumidores do Canadá e do Chile também integram a lista de clientes. Segundo o executivo, para fortalecer a proposta de valor e a sustentabilidade do negócio, a meta para 2021 é o desenvolvimento de um processo de auditoria das cooperativas que comandam os cerca de 800 fornecedores parceiros, baseados no Espírito Santo e no Paraná.


Apesar de o mercado de açaí estar em franca expansão e já movimentar um cifra de respeito – cerca de US$ 2 bilhões, por ano, com total predomínio do fruto extraído no Pará – o setor exige muitos cuidados. Primeiro porque o manejo incorreto pode trazer graves prejuízos ambientais, colocando a empresa na mira dos ambientalistas. Especialmente de ONGs americanas e europeias. “O risco é elevado, sem dúvida. Mas a oportunidade de ganhos, também”, diz ele.

É neste contexto que entram as certificações, incluindo a de Empresa B (que atesta que o negócio atua de acordo com severas normais ambientais, sociais e trabalhistas). Mesmo que não haja a derrubada da palmeira, a coleta dos frutos também pode concorrer para sua extinção no longo prazo. É por isso que o plano de manejo da Jaçaí prevê a retirada de apenas 60% dos frutos.

Mais. Nada é desperdiçado ao longo do processo produtivo. Enquanto a água usada no despolpamento do fruto é reutilizada, as sementes são a base do programas de replantio nas áreas de exploração do fruto. Em 10 anos, essa iniciativa já garantiu a germinação de 650 mil novas palmeiras. Para o próximo ano, a empresa pretende intensificar as ações de preservação, a partir de um mapeamento técnico das áreas com maior concentração do fruto.