15 anos de mídia independente e plural

Aos longo dos últimos 15 anos, poucas iniciativas independentes na área de mídia, comunicação e empreendedorismo conseguiram ficar de pé.

Um número ainda menor atingiu a façanha de se manter atuante em alto nível e com uma pegada inovadora. É neste contexto que é preciso analisar a trajetória do Instituto Mídia Étnica (IME), ONG baseada em Salvador e que nasceu do sonho de jovens estudantes de comunicação.

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Em comum, eles tinham também o incômodo de ver como a mídia de mainstream, e mesmo a independente, tratava as pautas populares e retratava a comunidade afro-brasileira. O primeiro desafio da turma foi reinterpretar e ressignificar expressões do dia a dia, entronizadas pelos jornalistas e comunicadores em geral, como sendo sinônimos depreciativos.

TIME DE CRIADORES: (a partir da esq.) Geilson Souza, Rosalvo Neto, Luciane Neves, Paulo Rogério, André Santana e Ilka Danusa

A primeira providência foi “enegrecer a mídia”, por meio de palestras em emissoras de TV, jornais, centros acadêmicos etc. Foi neste contexto que surgiram projetos exitosos, e de grande alcance, como o Portal e a TV Correio Nagô, cujo acervo reúne alguns dos momentos marcantes da história da cidade. A começar por entrevistas com personalidades nacionais, como Gilberto Gil, e internacionais, como o diretor americano Spike Lee.

Se fosse apenas isso, já seria motivo de sobra para comemorar. No entanto, a turma que toca o IME foi muito além deste ponto. Sua sede, batizada e Casa do Mídia Étnica, vem abrigando iniciativas inovadoras e de alcance mundial, graças a parcerias com instituições globais, como o MIT (Massachusetts Institute of Technology), dos Estados Unidos. Foi de lá que eles trouxeram a tecnologia Vojo, por exemplo.

Para celebrar os 15 anos do IME, os dirigentes da ONG realizam na segunda-feira (30/11), uma LIVE onde vão passar em revista essa e outras histórias deliciosas. Nesta entrevista, Luciane Neves, diretora-executiva do IME, fala da trajetória do Instituto e dá pistas sobre o que está sendo planejado para 2021.  

Em 15 anos, o IME se converteu num espaço de inovação e ressignificação da comunicação e do ativismo em Salvador. Quais são os principais aprendizados da equipe de fundadores neste período?

Em visita a Salvador, Spike Lee (centro) conheceu o Correio NagôEm visita a Salvador, Spike Lee (centro) conheceu o Correio NagôEntrei no IME um ano depois de sua fundação e, na época, não participava da diretoria. Entretanto, desde o começo, acredito que o IME foi um grande desafio e um grande laboratório para todo mundo. Para a diretoria e para o restante da equipe. Era um projeto novo, arrojado, formado por ativistas negros de Salvador e vindo desde o lugar da comunicação que sempre foi um território extremamente excludente e racializado. Pautar esse debate trouxe uma série de conhecimentos e de aprendizados. Além do próprio fato de criar e tocar um Instituto. As experiências adquiridas foram desde a questão mais política e da ação como também do fazer diário, no dia a dia da instituição.
 
 
 
Ao trabalhar com um tema bastante sensível, o IME deve ter esbarrado em muitas restrições. Especialmente em uma época em que não havia prevalência das redes sociais e o tema do racismo estava “adormecido”. Como a mídia de Salvador recebeu vocês e quais os principais entraves nesta jornada?
 

O IME foi uma novidade e ainda é uma organização que atua de forma inovadora no campo da comunicação e no que se entende como mídia, meios de comunicação. Estamos propondo um outro olhar para a comunicação e pautamos isso desde o começo. Hoje, o Correio Nagô, que é um dos nosso principais pilares, tem um alcance e uma solidez que há 15 anos não imaginávamos. É referência. E os meios de comunicação da cidade, colegas jornalistas e de outras áreas, tem essa referência quando pensam nas questões raciais e de comunicação.

O ativismo social baiano em 2005 precisava ter uma relação com os meios de comunicação. Então, foi o IME que fez essa ponte de diálogo entre o movimento negro e os meios de comunicação. Aprendemos que o que estávamos estudando na faculdade era um ambiente pouco conhecido pelos nossos.

Somos esse ponto devido as articulações e relações que criamos e com a excelência que realizamos as nossas ações e atividades.

Mais que uma iniciativa de caráter ativista, o IME se firmou como um celeiro de inovações, ajudando a colocar Salvador na rota de pensadores da comunicação baseados na América Latina, nos Estados Unidos e na África. Quais fatores permitiram a vocês se tornarem esse ponto de contato de Salvador com o mundo?

Acredito que o IME veio ocupar um lugar que estava vazio. Salvador, a Bahia e o Brasil de um modo geral careciam de experiências que pudessem olhar para a comunicação como um todo pelo olhar racializado. Isso era uma demanda antiga, pautadas nos movimentos e em alguns espaços, mas que ainda não tinha ganhado corpo, cara. O IME veio para reivindicar um pouco esse lugar e, mais do que olhar para o que estava sendo feito com uma perspectiva crítica, nós queríamos era fazer. E fazer diferente. Então, esse foi o nosso pioneirismo e o motivo pelo qual também conseguimos abrir várias frentes de diálogo: nós tínhamos algo diferente e extremamente importante a dizer para a sociedade.

*Gilberto Gil em visita ao IME*Gilberto Gil em visita ao IMEAo longo dos 15 anos, a Casa do Mídia Étnica, como ficou conhecida a sede da instituição, gerou uma série de filhotes: escritório de coworking, espaço para palestras e treinamentos e seminários internacionais e incubação de empresas. Vocês têm a dimensão de quantos negócios e quantas pessoas foram impactadas pela Casa do Mídia Étnica?

O Instituto Mídia Étnica (IME) desenvolve os projetos em três frentes estratégicas: Comunicação (Portal Correio Nagô, TV Correio Nagô), Inovação (Vojo Brasil, Afro Hacker, Mídia Étnica Lab) e Empreendedorismo (Jovens Empreendedores Culturais – JEC, Emerge Salvador, Ujamaa - acelerando empreendimentos). Nós treinamos mais de 1.000 pessoas. Já produzimos centenas de vídeos. A comunicação é algo difícil de medir. Mas acreditamos que estamos gerando uma mudança de mentalidade nas pessoas no Brasil. Representando pessoas negras e ser a sua voz.

O que o futuro reserva para o IME, entidade nascida do sonho de quatro jovens estudantes de comunicação?

Temos muitos desafios como toda instituição que não tem o apoio constante seja de fundações privados ou de instituições públicas. Temos uma estrutura física, uma equipe de profissionais dedicados ao IME, temos ideias e projetos que queremos que se tornem realidade. É um longo caminho e sabemos de algumas dificuldades, mas temos sempre a convicção de que já deu certo porque o que nós acreditamos no que  estamos fazendo e no impacto positivo que isso gera para a sociedade.

Em breve, lançaremos o LABCOM que tem como objetivo criar um centro de construção de narrativas, convergência de mídias e inovação digital, para conexão entre comunicadores e empreendimentos de comunicação de Salvador com outros centros de comunicação do Brasil e de países da Diáspora africana. A proposta visa realizar formações, intercâmbios e divulgação de pessoas e iniciativas que trabalham com a comunicação e construção de narrativas transmidiáticas com a participação social, em Salvador.

 

Legenda da foto que abre essa reportagem: 

TIME DE CRIADORES: (a partir da esq.) Geilson Souza, Rosalvo Neto, Luciane Neves, Paulo Rogério, André Santana e Ilka Danusa