Salve a cultura popular!

No dia 23 de abril se lembra o aniversário de falecimento de William Shakespeare (23 de abril de 1564 a 23 de abril de 1616). Isso mesmo, ele morreu no dia em que nasceu. Doido, né? Parece coisa de personagem que quando dá por encerrada sua missão sai pela porta por onde entrou, no caso o mesmo dia em que nasceu. Shakespeare em números é o seguinte: 38 peças, 154 sonetos e dois poemas narrativos. Segundo um estudo feito pelos norte-americanos no final do século 20, ele é um dos quatro assuntos mais discutidos pela humanidade. Os outros três são Jesus Cristo, Napoleão Bonaparte e a peça Hamlet, de Shakespeare. Portanto, em quatro dos mais badalados assuntos da humanidade, metade tem ele como centro.

Mas por que ele é tão importante? Ora, direis, porque Shakespeare é Shakespeare. Tá certo, mas vamos mais além, nem que seja em atenção aos 400 anos de seu passamento para o andar de cima – ou para a galáxia de onde ele veio, como creem uns mais animados.

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Shakespeare era popular chegando a alguns casos a ser popularesco. Isso mesmo, rasteirinho para cair nas boas graças do povão. Ele era um autor e ator profissional, vivia disso, de forma que ele precisava fazer aquilo que agradasse ao público de sua época.

Eventualmente, ele fazia encomendas para os poderosos e buscava cair nas graças de algum nobre, para ser financiado por ele. Era legal dar grana ao teatro, em especial para as companhias que encenavam textos populares. E Shakespeare era um deles.

As peças escritas por ele contêm amor, ódio, traição, sexo entre seres humanos e criaturas meio-humanas (ficou curioso? Isso acontece em “Sonho de uma noite de verão”), canibalismo (“Tito Andronicus”), mutilação (“Tito Andronicus” de novo), golpe de estado (“Ricardo II”, “Henrique VI terceira parte” e “Ricardo III”, só para citar três obras históricas), assombrações (“Hamlet”), crime doloso (“Macbeth”), ciúme paranoico (“Otelo”), magia (“A Tempestade” e “Sonho de uma noite de verão”, para ficar em duas obras), gêmeos (“A comédia dos erros”), machismo (“A megera domada”), patriotismo (“Henrique V”), abandono de idoso (“Rei Lear”), anti-semitismo (“O mercador de Veneza”), afrodescendente como personagem principal (“Otelo”)…acho que já está bom para exemplificar.

Ou seja, seu tema era o ser humano em estado bruto.

Cabe lembrar que durante uma das conspirações contra a rainha Elizabeth I os seus inimigos pagaram a encenação de “Ricardo II” como forma de preparar o espírito popular para a queda da soberana. Não deu certo, todos foram conhecer a lâmina do carrasco e Shakespeare passou noites insones achando que a qualquer momento os oficiais da Corte, a versão elisabetana do japonês da Federal, iriam bater em sua porta e o conduzi-lo à prisão para ser decapitado.

Se pensou na Torre de Londres, esqueça: aquilo era para a elite, tem até um portão chamado “Portão dos Traidores” por onde a nobreza desfilou antes de ter suas nobres cabeças separadas de seus não menos nobres, porém mortais, corpos. Shakespeare era povo, portanto ia ser executado no mesmo cepo dos ladrões. Mas não foi.

Elizabeth I achou que ele não era culpado, porque não era mesmo, e não amolou o moço. Mas reza a lenda que desse estado de pânico que se apossou de Shakespeare teria nascido sua mais brilhante obra – “Hamlet” – e o que indica seu estado de espírito naquele momento é justamente o monólogo “Ser ou não ser”.

Em síntese, agora sim para justificar o “Shakespeare é Shakespeare”, ele escreveu melhor do que todos até hoje. Soube mostrar o ser humano complexo de forma palatável em um palco de teatro popular. Aí reside sua genialidade. “E o resto é silêncio” (Hamlet).

Fernando Neves é jornalista e sócio da Argonautas Comunicação & Design