No campo, orgânico não é sinônimo de "largânico"

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Vista do sítio Leverani, em SP

Todo mundo sabe que um produto orgânico é cultivado sem agrotóxicos e insumos químicos. Por outro lado, muita gente também pensa que um produto orgânico é “largânico”. Ou seja, você planta e não cuida, não aduba, não pulveriza. Muito pelo contrário. Para ter qualidade, um produto orgânico exige até mais cuidados que um produto convencional. É preciso atuar na prevenção, para evitar pragas e doenças. É preciso cuidar do solo, para que ele seja vivo e forneça os nutrientes necessários para que as plantas se desenvolvam saudáveis e produtivas.  É um alimento cultivado com práticas sustentáveis, que não agridem o meio ambiente, que preservam a água, que melhoram a biodiversidade daquele ambiente.

Eu convivo com muitos agricultores convencionais e, no geral, eles supõem que por eu praticar agricultura orgânica eu não adubo as minhas plantas. Eu sempre explico que é claro que eu adubo e que eu uso insumos biológicos e homeopatia para evitar pragas e doenças.

Além disso, existe uma legislação que rege a agricultora orgânica no Brasil. A lei 10.831, estabelece as práticas que devem ser adotadas pelos agricultores para que sua produção seja considerada orgânica.  Há toda uma regulamentação e fiscalização para que o produtor rural receba o certificado de conformidade orgânica e tenha o direito de usar o selo “Orgânico Brasil”. Só podem ser considerados orgânicos os produtos que levam o selo.

Quem faz todo esse controle são empresas certificadoras credenciadas pelo Ministério da Agricultura, como IBD Certificações, Ecocert, Tecpar e Oia entre outras. 

Há duas formas de obter a certificação: por auditoria, quando uma certificadora inspeciona todo o processo de produção em visitas regulares para assegurar que todas as diretrizes estabelecidas pela legislação estão sendo cumpridas; e por sistema participativo, quando produtores, consumidores, técnicos e interessados se responsabilizam coletivamente pela fiscalização do cumprimento das regras de produção.

Há ainda um terceiro modelo, em que o agricultor precisa estar vinculado a uma Organização de Controle Social (OCS) com registro no Ministério da Agricultura que garante que os produtos são cultivados de acordo com a legislação de orgânicos e que dispensa a certificação. Neste caso, o produtor só pode vender direto para o consumidor final ou para programas governamentais (merenda escolar).

Eu tenho certificação por auditoria, pelo IBD Certificações. Eles visitam o sítio da minha família duas vezes por ano, para verificar se eu estou cumprindo o plano de manejo orgânico onde estão descritas todas as práticas adotadas no sítio. Também checam os cadernos de campo, onde anoto todos os insumos aplicados nas plantas, e se estou cumprindo as regras de rastreabilidade que garantem, entre outros pontos, que o consumidor final tenha acesso ao agricultor. Uma visita é agendada e a outra é feita de surpresa.

Todos esses mecanismos são uma garantia para o consumidor de ele que está comprando um alimento orgânico de verdade. São produtos mais caros e, portanto, é fundamental que o consumidor verifique se tem o selo Orgânico Brasil.  Em lojas especializadas que vendem a granel, feiras e cestas orgânicas, em que o selo não está estampado no produto, o consumidor tem o direito de pedir para olhar o certificado de conformidade orgânica dos alimentos que está comprando.  É um mercado bastante ético. Nenhum cliente meu, sejam eles distribuidores, lojas especializadas, feirantes ou produtores que entregam cestas (eles compram de outros produtores itens que não produzem) fecha uma compra sem que eu envie o meu certificado de conformidade orgânica.

Na minha empresa, o "largânico" não tem vez!

Milena Miziara
Author: Milena Miziara
Sobre o/a Autor(a)
Milena Miziara é jornalista. Desde 2019 também atua como sócia-fundadora da marca de frutas Laverani Orgânicos (SP)
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