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Quem é: Fausto Francisco dos Santos
Porque é importante: comandou o desenvolvimento de uma variedade de mandioquinha-salsa que mudou a vida dos pequenos agricultores de Angelina (SC)

Basta um bate papo de apenas 15 minutos com Fausto Francisco dos Santos para que seu interlocutor comece a rever conceitos sobre uma série de temas. A lista inclui a área de agronomia, na qual ele construiu uma bem sucedida carreira, mas também políticas públicas e geração de renda. Pesquisador aposentado da Embrapa Hortaliças, em Brasília, ele liderou os estudos que levaram à criação de uma variedade de mandioquinha-salsa: a Amarela de Senador Amaral. Essa espécie tem sido a base de uma verdadeira revolução na vida de pequenos agricultores. Graças à sua maior produtividade e menor tempo de maturação: oito meses, entre o plantio e a colheita, ante os até 18 meses dos cultivares convencionais. “Meu objetivo sempre foi desenvolver produtos capazes de gerar riqueza para a sociedade”, diz.

E ele faz isso até hoje. Quando deixou a ativa, em 2008, ele se mudou com a mulher, Maria Marta, para Angelina, município do Vale das Graças, em Santa Catarina. Lá, ele vem ajudando a aumentar a renda dos pequenos agricultores. “Conheci a cidade em 1996, quando realizei um curso de extensão rural no estado”, lembra. “Foi amor à primeira vista.” Dono de um pequeno sítio, no qual cria galinhas e mantém um orquidário, aos 63 anos Santos ainda mantém uma rotina agitada. Passa os dias percorrendo os municípios próximos para prestar assistência técnica. Faz tudo de graça. Até porque, fez questão de cancelar o registro profissional, no CREA. A carreira de consultor de grandes produtores ou de empresas, uma opção natural de quem atua com pesquisas, nunca fez parte de seus planos. Falta de ambição? Não, ideologia, mesmo. “Alguns colegas agem como se fossem Phdeus, limitando seu trabalho de pesquisa a obtenção de prêmios, sem pensar em gerar ganhos efetivos para a sociedade”, critica.

Apesar de ter feito mestrado e doutorado em soja, cultura que valoriza, Santos optou por trabalhar apenas com cultivares que gerassem dividendos específicos para a chamada agricultura familiar. “Sem o pequeno produtor não teríamos o que comer”, exagera. Sua mandioquinha-salsa é fruto de 12 anos de trabalho, envolvendo pesquisas de campo que contaram com a ajuda de colegas e, principalmente de agricultores encarregados de colher as sementes e fazer os testes de campo. Por conta disso, o cultivar já nasceu como sendo de domínio público. O que, aliás, era um desejo de Santos. Mais que apenas um novo produto, esse cientista visionário e prático, se preocupou em desenvolver toda a cadeia. Da produção da muda à colheita, até a comercialização. A mandioquinha, até então, não gozava de muito prestígio no campo, nem na mesa dos consumidores. A variedade é mais adocicada e tem um cheiro menos forte, o que facilitou sua assimilação por brasileiros de todas as regiões.

O lado prático da pesquisa incluiu o plantio em condições reais em nove estados, o teste de paladar foi feito com consumidores em supermercados de Brasília. Santos estudou, ainda, os esquemas de logística, distribuição e manipulação do produto nas centrais de abastecimento. Por fim, coube à companheira Maria Marta elaborar um livro com 52 receitas. O lançamento da Senador Amaral foi em grande estilo. Santos ligou para dezenas de associações de agricultores e disse que a Embrapa teria mudas para vender por preços subsidiados. Foi a senha para que uma multidão se dirigisse para Brasília, causando um engarrafamento monstro na rodovia BR-040, em 1998. “Os colegas quiseram me bater, porque a Embrapa parou”, recorda. Hoje, discípulos como o pesquisador Nuno Madeira lideram o desenvolvimento de novas variedades de mandioquinha-salsa na Embrapa Hortaliças.