Batalha do dia a dia

A luta contra a Aids ganhou força ao longo das décadas de 1990 e 2000. O sucesso de descobertas como os coquetéis anti-retrovirais foi tamanho que, muitas pessoas chegaram a imaginar que, enfim, havia sido descoberta a cura para esta grave doença. Infelizmente, esse pensamento acabou levando um número significativo a abandonar cuidados básicos relativos à prevenção: uso da camisinha e o não compartilhamento de seringas. Resultado, os casos de Aids voltaram a crescer, especialmente entre a população jovem.

Segundo o The Gap Report, feito pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids), o número de novos casos de infecção pelo HIV cresceu 11% no Brasil no período 2005-2013, com cerca de 42 mil pessoas tendo contraído o vírus. Em relação às mortes provocadas pela doença o aumento foi de 7%, chegando a cerca de 15 mil óbitos em 2013. Nada menos que metade dos infectados estão na faixa etária entre 10 anos e 19 anos.

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No Ceará, um projeto vem tentando reverter este problema de um jeito, digamos, menos careta. Por meio de palestras e outras dinâmicas, o Fique Sabendo Jovem orienta adolescentes sobre a necessidade de assumir uma postura preventiva em meio a iniciação sexual. O trabalho conta com o suporte da Unicef, agência da ONU para infância.

Um dos engajados nesta cruzada é Rodrigo Xavier, de 18 anos, nascido em Eusébio, cidade da Região Metropolitana de Fortaleza. Apesar da pouca idade ele pode ser considerado um veterano nesta luta. É que desde os 11 anos ele atua como voluntário em programas da Unicef na área da prevenção a da promoção da saúde.

Um dos espaços onde acontecem estas dinâmicas são os centros educacionais para adolescentes em conflito com a lei. Por meio do bate papo, Rodrigo e sua trupe tenta sensibilizar os jovens a fazerem o teste de HIV, sífilis e hepatites virais. Durante o Carnaval 2014, a equipe percorreu as ruas da capital cearense a bordo de uma van fazendo sensibilizações sobre o tema e lembrando da importância de fazer o teste para detectar a existência de DST/Aids.

Em entrevista a 1 Papo Reto, Rodrigo conta um pouco mais sobre o projeto e a importância de os jovens assumirem a linha de frente em assuntos delicados como este.

O fato de você possuir uma grande experiência em ações comunitárias, além de estar na faixa etária similar a do público alvo da campanha, ajuda na hora de passar a mensagem?
Sem dúvida. Vejo que a minha experiência de outros projetos me possibilita uma melhor abordagem com os jovens, além de influenciar no convencimento de outros jovens a fazerem a “testagem rápida”, que é de vital importância para a detecção precoce do HIV.

Existem estatísticas sobre as ações de mobilização derivadas deste programa?
Sim, elas são apresentadas regularmente ao Grupo Gestor do Projeto mas não tenho como lhe informar. O UNICEF e a Secretaria de Saúde de Fortaleza saberão responder.

Como você se interessou em atuar nesta área, em geral, e neste programa, em particular?
Bem, eu participo voluntariamente de projetos que trabalham com protagonismo juvenil e promoção a saúde há sete anos no município de Eusébio. Por conta disso, fui convidado pelo GAPA-CE a participar do treinamento seletivo para o grupo de jovens que iriam atuar no projeto, ficando entre os seis aprovados.

O conhecimento e as informações sobre as formas de contágio da Aids é cada vez maior. Hoje, já não se fala mais no Câncer Gay”. Apesar disso, os casos da doença vêm crescendo no Brasil, especialmente entre os jovens. Por que isso acontece?
Em minha avaliação essa visão de que a Aids é uma “doença gay” ainda existe, o que de certa forma passa a ser um fator de contaminação: `Como a doença é de Gay e eu sou hetero então estou imune´. Esse pensamento preconceituoso ainda existe. O uso de drogas, sem dúvida, também é outro fator que faz com que nossos jovens cada vez mais estejam entrando nesse caminho, o que aumenta sua vulnerabilidade.

No que o trabalho da UNICEF tem de diferente em relação às demais dinâmicas envolvendo a conscientização sobre DST/AIDS?
A principal inovação está na metodologia usada, que inclui criatividade, estímulo ao protagonismo, identificação de lideranças jovens, metodologia de educação entre pares, disseminação dos direitos das crianças e adolescentes. Afinal, nós somos não só o futuro, mas também os agentes da mudança no presente. Hoje me sinto positivamente um “produto” que pode criar outros “produtos” ou seja um multiplicador de ideias. E é nesse ponto que começa a mudança.

A sua militância, podemos dizer, começou na tenra idade. O que o levou a abraçar o Terceiro Setor desde cedo e, especificamente, atuar em um área tão desafiante como a de políticas de prevenção de doenças sexualmente transmissíveis?
O amor pelo próximo, me foi ensinado desde o berço pelos meus avós; a educação que tive em casa me fez ser o que sou hoje. Faz parte da minha essência ajudar pessoas, repassar informações, promover a saúde e querer mudanças. A entrada no Projeto NATIVA do GAPA-CE ,desenvolvido na escola na qual estudava, em Eusébio, abordando a educação para o exercício da sexualidade responsável, foi a ponte para a militância no Terceiro Setor.