Borracha e arte

Poucas horas antes da noite de révillon de 2012, a paulistana Luly Vianna caminhava pela estreita e acanhada orla de Teresina, quando deu de cara como um monte de tiras de câmaras de pneus de caminhão jogadas na calçada. “Fiquei impressionada com um tipo de material que, até então, não conhecia”, recorda. “Fiz inúmeras fotos para não me esquecer daquela cena e do tipo de material.” E não e esqueceu, mesmo!

É que desde junho, Luly ganha a vida produzindo peças sofisticadas feitas a partir de câmeras de pneus descartadas. Os produtos da Saissu, que significa amor em tupi-guarani, incluem malas, carteiras, cintos e pulseiras. São peças com design e um bom gosto único, cujo objetivo é engajar as pessoas que valorizam produtos na linha eco chic, como a mala Sorriso. “Meu público não é surfista, empresário ou pessoas que gostam de luxo”, explica. “Mas sim pessoas inteligentes.”

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Neste rol ela inclui todos aqueles que valorizam um estilo de vida que respeita a natureza e enxergam valor em empreendimentos destinados a fazer do planeta um lugar melhor.

Hoje, não existe uma política estruturada de reciclagem das câmaras de ar de pneus. Por conta disso seu único aproveitamento tem sido a transformação das peças em tiras para ajudar na amarração da carga em boleia de caminhões. “A maior parte deste material ou é queimado ou enterrada, o que, na minha avaliação, se constitui em crime ambiental”.

Neste contexto, o trabalho da Saissu ganha ainda mais importância, apesar de absorver apenas 150 câmaras por mês e cuja meta é chegar a 500 unidades/mês, em junho de 2015. Mas a grandeza não está nos números, e sim em sua capacidade transformadora.

Em apenas três meses a Saissu já se tornou referência em matéria de moda e design sustentável. Uma boa amostra disso é o fato de a mala “Smile” ter sido incluída no acervo do museu A Casa, de São Paulo. Mas Luly mantém os pés no chão. “O que fazemos é relevante, sem dúvida. Mas do ponto de vista do risco ambiental do setor, ainda é uma gota no oceano”, reconhece a empreendedora.

Até chegar neste ponto, foi penoso. Para viabilizar as peças, a empreendedora pesquisou inúmeros métodos de lavagem e hidratação da borracha. Porém, nada gerava os resultados esperados. A coisa mudou de figura quando Luly conheceu uma empresa que produz uma tinta ecológica, usada pelas montadoras para dar o acabamento final nos pneus dos veículos que fabrica, antes de eles chegarem ao mercado.

Mais que reciclagem e design, a Saissu se coloca como uma empresa também com viés social. Isso porque, todo o processo produtivo envolve inúmeros parceiros. A matéria prima é fornecida pela Renovar Pneus e a Costeira Transportadora. Parte da costura é feita por mulheres ligadas à ONG Filó Cabruêra e a Associação Dona Maria, ambas situadas em regiões carentes de São Paulo. Para ganhar mercado, ela se associou a ícones do setor como as designer Chiara Gadaleta, criadora do movimento Ecoera (uma curadoria de moda sustentável) e  Carol Gay, especializada em peças de decoração.

Para reunir este time, a fundadora da Saissu usou a longa experiência no segmento de marketing e no terceiro setor.

Primeiro falemos de sua longa trajetória empresarial, que incluiu a atuação em grandes empresas, a desilusão com a carreira e um vazio existencial, que a levou a se radicar em Nova York, em 2009.

Na chamada Big Apple, Luly trabalhou como garçonete enquanto estudava artes plásticas na prestigiada School of Visual Arts, mais conhecida pela sigla SVA, e na não menos importante Universidade da Nova York (NYU) onde se aprimorou em relações internacionais.

No entanto, nada parecia fazer sentido. Foi então que um amigo que morava em Londres lhe propôs passar uma temporada na Índia. Lá, a empreendedora conseguiu se encontrar consigo mesma. “Entre idas e vinda passei 18 meses naquele país”, conta. “Foi uma experiência incrível.”

E também desafiadora. É que uma das ONGs nas quais ela deu aulas de artes e de inglês fica e um pequeno vilarejo próximo da imprevisível fronteira com o Paquistão, adversário histórico da terra de Gandhi. “Minha mãe achou que jamais me veria viva novamente”, lembra. A jornada também incluiu uma breve passagem pela Itália.

A partir daí entra em cena, praticamente em tempo integral, a Luly ativista de causas sociais.

De volta a São Paulo, ela atou em diversas ONGs até se decidir pela carreira de empreendedora, exatamente no segmento da moda, com uma pegada de arte. “Trabalhar no Terceiro Setor não rende grandes dividendos financeiros, mas possibilita uma satisfação que não se encontra em empresas convencionais.”

Luly diz que a Saissu é um pouco do resultado de sua trajetória pessoal e profissional, além da sua vontade de fazer coisas capazes de mover o mundo em direção à sustentabilidade. Isso, segundo ela, é apenas do primeiro passo em uma longa jornada. “Minha ambição é me tornar uma exportadora de moda e disseminadora do conceito que há por trás da marca Saissu, que tem na arte uma ferramenta transformadora”, resume.

A empresária paulistana conta que não pretende parar no uso de câmaras de pneus. Em breve, sua ação transformadora deverá incluir outros materiais, como garrafas PET e latas de alumínio. A ideia é usar todos estes objetos recicláveis como base para lançar moda.

Sustentável, bem entendido!