Caronas, apps e afins. Soluções inteligentes e de alto impacto

A dificuldade para transitar nas ruas de cidades cada vez mais congestionadas por carros, ônibus, caminhões e motocicletas vem provocando alguns fenômenos inimagináveis há 20 anos. Um deles é a pressão cada vez maior para que os motoristas troquem o carro pelo transporte público. Outro é a popularização da carona. Sem contar a volta das bicicletas à paisagem urbana em cidades como São Paulo, Curitiba e Brasília.

Nos dois primeiros casos, a mudança de atitude vem sendo feita por conta de restrições, como o rodízio de veículos (que veda a circulação de veículos em algumas áreas, em determinados dias) e a criação de faixas exclusivas para ônibus. No outro, é fruto do forte ativismo dos adeptos das magrelas, além da sequência de tragédias (atropelamentos e mortes de ciclistas), que ajudaram a lançar luzes sobre esta opção de transporte, facilitando o reforço de medidas para resguardar a segurança e a integridade deles.

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Neste contexto, a gestão da mobilidade das pessoas e das cidades se tornou não apenas um desafio cada vez mais complexo, como também uma opção interessante para a geração de negócios. Um dos que sacaram isso foi o paulistano Marcio Nigro. Graduado em engenharia naval pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP) e com especialização em logística, ele foi o pioneiro na criação de uma empresa dedicada ao gerenciamento de caronas, batizada de Caronetas, que tem como grande ativo um software de gestão e portal de internet e páginas em redes sociais.

A ideia surgiu da observação da realidade: “Sempre me revoltou ver que os carros são ocupados por apenas uma pessoa, em uma cidade tão bem servida de transporte público como São Paulo”, diz Nigro. “Em 2008, já estava claro que a cidade iria parar, pois vias importantes como a avenida Paulista e as marginais se mostravam saturadas.”

Mesmo quem reconhecia os problemas topava e topa o desgaste de encarar os picos de engarrafamentos medidos em 80, 100 e até 220 km de extensão, nas vias da terra da garoa. O pensamento se baseava no conforto que o carro proporcionava: ar condicionado, música e a possibilidade de optar por caminhos alternativos. Isso porque a opção a isso era o nem sempre eficientes transportes públicos.

Em 2010, o empreendedor resolveu juntar as duas pontas e transformar sua indignação em negócio, com o auxílio de três colegas da USP e um investidor-anjo do Canadá, cujo nome ele não revela. Por meio de uma pesquisa informal com amigos Nigro descobriu que muitos deles estariam dispostos a dar e pegar carona. E isto valia para amigos e até mesmo desconhecidos.

Hoje, o Caronetas é um negócio consolidado. Possui um portfólio que inclui 1,7 mil empresas cadastradas, entre as quais Citibank, Vivo, TAM e Vale, além de 18 mil pares de caronistas e de caroneteiros inscritos. “Tiramos 4,5 mil veículos das ruas”, conta.

Mas, isso não significaria uma concorrência desleal com o táxi ou a criação de um sistema paralelo de transporte público? Nigro diz que não. Primeiro, porque se trata de uma ação entre amigos, e, segundo, porque a remuneração paga pelo carona (que varia de R$ 5 a R$ 12 por dia) se dá por meio de uma moeda virtual, a caronetas. “O pagamento é importante porque, na vida, não existe almoço grátis”, afirma. “Mas o que temos neste processo é um escambo e não a realização de um negócio entre as partes.”

Facilidades na palma da mão

A afirmação do empreendedor tem como destinatário a ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres), cujos integrantes vêm se mostrando críticos destes sistemas. Além da remuneração simbólica, dar carona também rende alguns dividendos. Na Cidade Administrativa Presidente Tancredo Neves, conjunto de prédios que reúne a administração estadual, situada na região norte de Belo Horizonte, quem participa do esquema de carona tem direito a uma das 200 vagas exclusivas para estacionar no local.

Na busca pela melhoria da mobilidade urbana e da qualidade de vida, os aplicativos se tornaram armas importantes não apenas para o pioneiro Nigro. São esses mecanismos que rodam em smartphones e computadores que permitem aos usuários uma nova forma de conviver com a cidade. Suas alegrias e suas dificuldades, no que se refere à mobilidade urbana.

Hoje, os apps que falam de trânsito vêm ganhando cada vez mais espaço no mundo virtual. Calcular a melhor rota para seguir de bike de um ponto a outro, encontrar caminhos alternativos e até mapear os radares para minimizar o risco de multas, são algumas das utilidades destes mecanismos.

A experiência do uso compartilhado dos veículos também possui outras vertentes. Em cidades da Europa, como Paris, ou dos Estados Unidos, como São Francisco, os sistemas de car sharing já são uma realidade. Uma empresa, às vezes até mesmo a prefeitura, disponibiliza uma série de veículos, normalmente movidos a combustíveis alternativos, para serem divididos entre os motoristas cadastrados, que pagam uma pequena taxa.

Veículos sem donos

O sistema chegou ao Brasil pelas mãos da paulistana Zazcar. Existem algumas diferenças fundamentais. A principal delas é o público alvo: pessoas que já tiveram carro próprio ou nem pensam nisso, mas, eventualmente precisam de um veículo para se locomover em determinado trecho, mas não quer depender do táxi.

O grande charme, de acordo com o Guilherme Monteiro, gerente de marketing da empresa, é a facilidade em utilizar o serviço. A partir de um cadastro no site, o usuário recebe um cartão com o qual ele realiza os pagamentos e o desbloqueio dos veículos. A grande diferença em relação à locação tradicional é a flexibilidade.

O período pode ser contado em horas ou dias. “Muitos de nossos clientes são paulistanos que decidiram abrir mão do carro próprio”, explica Monteiro. “Com isso, ele fica livre de encargos como manutenção, impostos, seguros e até o custo da gasolina.”

Segundo o executivo, a frota da empresa inclui uma diversidade de modelos, que varia do Novo Uno (ao custo de R$ 6,90, por hora) ao Cruze (R$ 27,90).

Nenhum deles movido a fontes alternativas, como a eletricidade. “Apesar de entendermos a importância dessas tecnologias, elas ainda não são viáveis do ponto de vista financeiro e operacional.”

Compartilhamento elétrico

Uma situação bem diferente da que acontece em cidades com Paris, por exemplo, que possui um dos mais festejados e bem-sucedidos programas de car sharing da Europa, gerenciado pela Autolib, baseado em veículos elétricos e cujo slogan é o provocativo “Livre como o ar“.

O objetivo foi atacar dois problemas contemporâneos: a imobilidade urbana e a poluição. Por conta disto, toda a frota da empresa é composta por automóveis movidos a bateria. Capazes de atingir velocidade máxima de 130 km/h, os veículos podem rodar até 250 quilômetros com uma única carga.

No Brasil, a Fiat pretende instalar um sistema semelhante no Marco Zero de Recife, a região central da capital pernambucana. Lá, a base será o estilosos modelo 50. Procurada para falar sobre o projeto, a assessoria de imprensa da montadora não retornou os pedidos de entrevista feitos pela equipe de reportagem de 1 Papo Reto.