Eu já contei essa história, mas diante do atual momento que estamos passando tudo bem ser repetitiva.

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No último dia 4 de junho, a empresária Eliane Dias, o advogado Silvio Almeida e o cineasta americano David Wilson falaram no programa Conversa com Bial sobre as consequências do sistema racial entre Brasil e Estados Unidos e compartilharam expectativas com as fortes mobilizações que acontecem após a morte do americano George Floyd

O advogado, Almeida disse uma coisa que me fez reviver um episódio ruim, mas que me fortaleceu.

Ele disse “o negro tem duas datas de nascimento: uma pelo Estado a outra quando você se dá conta de sua cor".

A minha do Estado, o dia que nasci, foi dia 20 de fevereiro de 1975. A outra foi no dia 13 de agosto de 2015. Meu segundo nascimento foi nesse dia, em São Paulo, mais precisamente no prédio da FIESP, na avenida Paulista.

Eu nunca tinha pensado na minha cor, quisera ninguém nunca tivesse que pensar nisso. Mas nesse dia, o dia que o racismo me atacou, eu Re/Nasci.

O ato veio de um empresário, na ocasião também o presidente de uma associação do setor que ele atuava, com sede no Sul, mas que receberia uma comitiva na capital paulista para um pronunciamento de mercado.

Eu tinha sido convidada à distancia, por um membro da equipe para ser a mestre de cerimonia, ao me ver ele me “desobrigou” da missão.

A pessoa da equipe tentava desconcertadamente me convencer de que eu não precisava mais cumprir aquela função, que ela poderia assumir o papel.

Foi uma manhã confusa, mas ao tempo que toda aquela confusão se apesentava eu fui entendendo o que estava acontecendo, em especial quando o tal presidente se esquivou de minha presença e de meu cumprimento - e quando minutos depois, sabendo exatamente o que estava acontecendo me posicionei - foi então que uma pessoa da equipe me afastou, abriu o jogo e com olhos lagrimejados confidenciou: ele disse que a cor da sua pele não combina com os olhos azuis de seu público”.

Eu nem preciso dizer que eu me preparei para aquele momento. Na noite anterior fiquei treinando, estudando sob os olhos atentos e orgulhosos de meu filho, na época com 12 anos. Mas eu não estava preparada para aquela situação, nunca tinha passado na minha cabeça que seria provida de fazer o meu trabalho por conta de minha cor. Para aquilo eu não estava preparada.

Doeu pela segunda vez, mais tarde ao chegar em asa, quando meu filho animado veio me perguntar como tinha sido. Como dizer que não tinha sido? Que fui impedida de fazer o fui lá fazer por conta de minha cor?

Foi nesse dia que eu nasci novamente e bebi da consciência de minha cor e de como ela podia incomodar. Naquele dia em diante revivi todas as vezes que passei por situações sem me dar conta até aquele momento.

Eu lamento não ter o denunciado na época. Era um cliente, eu o demiti formalmente por um e-mail protocolarmente respondido pelo setor jurídico acatando o rompimento da relação contratual. E a vida seguiu. Certamente seguiu para ele replicado atos racistas.

Seguiu para mim aprendendo a dar novos passos, como uma criança que aprende a andar.

20/02/75 nasci da barriga branca de minha mãe.


13/09/15 nasci de uma consciência negra.

Fure o Bloqueio. Não se cale! Denuncie.

Iza França é jornalista. Especialista em Gestão de Comunicação pela Universidade de S.Paulo (ECA)