Mobilidade elétrica

O Brasil possui um dos maiores programas de combustíveis alternativos do mundo, baseado no etanol, que acabou dando origem ao carro com motor flex. Agora, a tese que começa a ganhar corpo é a proposta de adição de biodiesel no diesel mineral (veja matéria sobre o tema em nosso especial sobre bioenergia). Hoje, a mistura chega a 7%  e já existe uma pressão para que seja elevada a 20%.

Seria uma forma inteligente de reduzir a poluição provocada por motores a diesel mineral, além de criar oportunidades de investimentos no campo. Tanto para as empresas, quanto para os pequenos produtores rurais, que entrariam como fornecedores da matéria-prima. Ganharia também o país, com a redução dramática da importação de diesel mineral, que causa um grande impacto nas contas da Petrobras.

Mas apesar dos esforços para melhorar a qualidade de nossa mobilidade urbana, o Brasil continua na rabeira quando o assunto são os veículos híbridos, movidos a bateria elétrica e combustível líquido, e ainda mais distante no tema carros puramente elétricos, mais conhecidos como EVs (na sigla em inglês).

Trata-se de uma diferença e tanto em relação ao que acontece na Europa, na Ásia (incluindo a China) e até na América do Norte. Vem deste último continente, aliás, as mais novas notícias em favor dos veículos EV. Falo especificamente da cidade de Montreal, no Canadá, onde o prefeito Denis Coderre decidiu ampliar a presença destes veículos na paisagem.

Para isso ele acaba de determinar a criação de uma empresa estatal de compartilhamento de veículos com esta tecnologia. A ideia é que a frota chegue a 250 unidades até abril, saltando para mil até o final de 2020. Deste modo, ele espera cortar em 30% as emissões de dióxido de carbono (CO2), um dos principais gases causadores do efeito-estufa.

Em entrevista ao portal treehugger, o alcaide não esconde que sua ambição é fazer de Montreal a pátria do transporte elétrico. Hoje, este título pertence a Noruega. A decisão da prefeitura de operar um sistema elétrico já coloca pressão sobre os empreendedores que operam sistemas do tipo, como a Communauto. Na semana passada, a empresa anunciou aumento de 50% na frota de EVs. Das atuais 40 unidades para 60 unidades até o final de setembro.

Os moradores de Montreal já deram provas de gostar dos EVs. Recentemente, eles bateram o recorde mundial no número de integrantes de uma parada de carros elétricos, ao reunir 431 bólidos energizados. A façanha foi reconhecida pelo Guiness Book.

E no Brasil?

Bem, por aqui, o carro elétrico está muito distante de emplacar. E as iniciativas se limitam a algumas ações isoladas como o programa de empréstimo/venda subsidiada de veículos para a Polícia Militar do Rio de Janeiro e de São Paulo, além da oferta direcionada aos taxistas, feita pela japonesa Nissan, dona do Leaf EV.

Além disso, algumas prefeituras, como a de Fortaleza e a de São Paulo, liberam estes modelos do pagamento do IPVA e também do rodízio de veículos, que vigora apenas na cidade de São Paulo. A tendência, de acordo com especialistas e fabricantes, é que o carro elétrico nem chegue a emplacar por aqui. A explicação estaria no estímulo dado aos biocombustíveis.

Por conta disso, ecologistas e fabricantes vêm adaptando o discurso em favor do motor híbrido. Isso vale tanto para automóveis de passeio quanto para ônibus. A ideia é que estes veículos sejam movidos a um motor elétrico e tenham um reservatório onde pode ser colocado diesel de cana ou biodiesel.

Na prática, funciona assim: o motor a diesel/biodiesel seria usado apenas para dar a partida no veículo e a partir daí, o ônibus se moveria com a força da bateria. A recarga pode ser feita por meio da energia cinética gerada com o acionamento dos freios (semelhante ao que acontece em um carro de Fórmula 1), ou utilizando dispositivos instalados sobre os veículos e no teto dos pontos de parada.

No fundo, cabe à sociedade definir como é que pretende gastar o dinheiro dos impostos. Hoje, não restam dúvidas de que a poluição causada por automóveis é nefasta. Não só à saúde como a economia de um país. E isso já é medido em números por diversas pesquisas. Aqui e no exterior.

Nos Estados Unidos, o governo federal e o estadual concedem subsídios para a aquisição de carros elétricos. Quem mora na Califórnia ganha um desconto de US$ 11 mil. Com isso, o compacto Spark EV, da General Motors (GM) pode ser adquirido por US$ 15 mil.

No Brasil, o programa de renovação da frota de ônibus poderia ser a porta de entrada para os veículos de transporte coletivo movidos a combustíveis elétricos. Somente a prefeitura de São Paulo se prepara para fazer uma licitação que deve movimentar cerca de R$ 90 bilhões, em 15 anos. (leia reportagem aqui).

Enquanto o mundo avança, a eletromobilidade no Brasil continua quase que no terreno da distante ficção científica. Só que o futuro já está passando por nós. E na velocidade da luz.