Minha Rua e minhas experiências

Leandro Firmino da Hora é um sujeito peculiar. A começar pelo sobrenome. Nascido em São Gonçalo, cidade da Região Metropolitana do Rio de Janeiro, ele foi criado na Cidade de Deus, uma das maiores favelas cariocas. Lá, Firmino se descobriu ator por acaso, aos 22 anos, quando “meio a contragosto” foi fazer o teste, e ganhou o papel para viver Dadinho (“Meu nome é Zé Pequeno!”), um assassino frio e vingativo que dominou a favela daquele pedaço na década de 1960. Desde então, tem sido escalado para inúmeros filmes (CafundóJulio SumiuTotalmente Inocentes e Quase Samba) e séries de TV (A DiaristaMano a ManoA Grande Família e Magnífica 70). Versátil, conseguiu se libertar do personagem que lhe abriu as portas da Sétima Arte.

A fama repentina, no entanto, não mexeu com sua cabeça. Continuou morando no mesmo bairro, de onde saiu apenas em 2014, para fixar residência em São Gonçalo, onde vive com a mulher, Letícia Freitas, e o pequeno Luis Miguel, de quatro anos. “Continuar na comunidade foi a maneira que encontrei de manter meus pés no chão”, contou ao portal de notícias 1 Papo Reto.

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Na verdade, logo depois do filme Cidade de Deus, ele viveu um período na Zona Sul do Rio. Mas não se adaptou ao novo endereço, pois temia acumular dívidas caso não pintassem novos trabalhos. “Tudo na vida passa, né!? Quando você está num projeto de sucesso, tem um monte de gente te bajulando e depois você se vê sozinho.”

E é a partir de São Gonçalo (terra do famoso ator e humorista Pedro Cardoso, o Agostinho de A Grande Família), que Leandro tem feito incursões por diversos pontos do Brasil. Só que, agora, na pele do dublê de apresentador de TV e entrevistador do programa Minha Rua, exibido no Canal Futura.

De certa forma, este trabalho mantém Leandro conectado à Cidade de Deus, também conhecida como De Deus ou CDD. Isso porque o projeto é assinado pela produtora Jabuti Filmes, uma das muitas crias da agitação audiovisual que envolveu boa parte dos moradores da comunidade nos últimos 16 anos. “O programa era uma ideia antiga do Luis (Luis Carlos Nascimentosócio-diretor), mas só foi viabilizado em 2014”, lembra Firmino.

Na pele do apresentador/entrevistador, ele vai guiando a câmera e os holofotes para personagens com histórias marcantes. Um deles é do barbeiro Pelé Art, conhecido como o Rei da Navalha, que mantém um salão em uma das ruas (literalmente) da Favela Gogó da Ema, em Guadalupe, bairro do subúrbio do Rio de Janeiro. Sua trajetória será contada no oitavo episódio da segunda temporada de Minha Rua, que vai ao ar na segunda-feira, 18/1, no Canal Futura.

Apesar de receber o roteiro pronto e acabado, Firmino diz sempre dá um toque pessoal em alguns trechos. Especialmente na cabeça, nome técnico do texto narrado pelo apresentador/repórter. “Eu reescrevo esta parte para que fique claro que quem está falando é o cidadão Firmino e não o ator interpretando um personagem”, explica. “Caso contrário, soaria como apenas um texto decorado e não ficaria legal.”

De fato, a espontaneidade é a marca da série. Em vez de fazer ares de especialista sobre o tema abordado em cada programa, ele procura conduzir o telespectador num mergulho em universos tão díspares como o grafite (Marcelo Eco), a ancestralidade afro-brasileira (Fatinha do Jongo), o mundo das artes (Maria Gomide) e dos ativistas sociais (Ed Marte). Eles são garimpados na periferia carioca e também em outras partes do Brasil como as cidades de Bonito (MS), Belo Horizonte, Aracaju e Salvador.

Mesmo com a facilidade em lidar com as câmeras, Firmino se diz surpreso por ter sido convidado para o projeto. Diante do sucesso não seria o caso de investir em uma nova função no mundo do entretenimento? O ator carioca responde de forma enigmática, sem confirmar ou negar essa intenção. “Minha carreira tem se desenvolvido por meio da absorção das influências das pessoas com as quais trabalho. Isso me ajuda a aprimorar as diversas competências artísticas.”

SEM MUITA FÉ NO FUTURO

Apesar de todo o sucesso e de não ter lhe faltado trabalho desde sua bombástica estreia, há 14 anos, Firmino não se mostra otimista com a participação dos atores negros no segmento audiovisual. “Me mantenho cético em relação ao futuro para não me decepcionar”, filosofa. Uma postura que funciona como uma espécie de couraça para quem não consegue entender por que, num país cujo contingente de afrodescendentes chega a 52% da população, existam tão poucos negros nas produções audiovisuais.

“Faltam oportunidades”, critica, para depois provocar. “Em todas as produções das quais eu participo é sempre a mesma coisa: a dominância é do branco vindo de famílias de classe média ou de classe alta. Mesmo que o camarada venha do subúrbio ou de bairros periféricos, como Santa Cruz.”

Mas, e qual seria a solução? “Temos de criar um sistema de cotas para produtores, diretores e atores negros!”, dispara. E vai além: “Também teríamos de contar com emissoras comandadas por empresários negros, assim como existem nos Estados Unidos.”

Firmino sabe do teor explosivo e polêmico destas propostas. “No Brasil vigora um racismo maligno, que nos faz pensar o tempo inteiro que ele não existe já que vivemos numa sociedade miscigenada. Mas sabemos tratar-se de uma grande mentira”.

Obs.: Texto atualizado às 13h.