Viagem jornalística

Uma rápida busca na internet é o bastante para mostrar o quão diferenciado é o trabalho e a trajetória da jornalista americana Kiratiana Freelon, 33 anos. Mulher decidida, ela assumiu um papel protagonista já na faculdade quando, ao lado do colega Marques Redd, escreveu o controvertido livro The Black Guide of Life at Harvard (ainda sem título em português), lançado em 2003. O objetivo era facilitar a adaptação dos calouros afro-americanos que rompiam a barreira externa e conseguiam ingressar em uma das mais prestigiosas universidades do mundo.

Mas o livro acabou funcionando, também, como uma espécie de denúncia sobre o permanente estado de “tensão racial” vivido por jovens como Kiratiana e Marques no ambiente acadêmico. Nada diferente do cenário que bem conhecemos por aqui. Mais que apenas instigar o debate, a obra lança luzes sobre a “herança negra” naquela universidade. Afinal, em um país no qual até o começo da década de 1960 vigoravam leis segregacionistas causa espanto saber que, em 1895, o negro W.E.B. DuBois concluía seu doutorado naquele que já era considerado um dos berços da cultura mundial.

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(O brasileiro Luiz Gama, pai do abolicionismo no Brasil, foi hostilizado no curso de direito da Universidade de São Paulo, por pressão de alguns influentes alunos! Mesmo assim, conseguiu assistir às aulas como ouvinte e se tornou um rábula. Na época não era necessário obter o diploma para realizar defesas em tribunais. O resto é história)

Mas voltemos à nossa personagem principal.

Terminado o curso, Kiratiana correu o mundo, graças a uma bolsa de estudos. Percorreu a África, passou pelo Brasil, pela Inglaterra e a França. Algumas destas viagens também renderam livros que ajudam viajantes a mergulhar nas raízes africanas em Paris e em Londres. “Sou do tipo que gosta de compartilhar todas as informações que acumulo ao longo de minha trajetória, como uma forma de ajudar as pessoas”, explica. Sua próxima aposta na literatura de viagem narra as experiências no Brasil. O livro está previsto para chegar ao mercado em abril de 2016.

Até lá, Kiratiana mantém sua atribulada rotina de correspondente estrangeira free-lancer de portais de internet, revistas e jornais. A lista inclui a cultuada revista americana Ebony, o portal Shadow and Act, o projeto International Journalists´ Network (Ijetnet) e o canal de esportes ESPNW, dedicado apenas às mulheres. Também pode ser vista assinando trabalhos como videomaker em algumas reportagens do prestigioso The Washington Post. Em todos ela é apresentada como escritora e especialista em viagens. Mas seu grande atributo é a capacidade de lançar um olhar diferenciado aos fatos do dia a dia e às pessoas com as quais interage.

Aliás, são as histórias humanas, nas quais o poder de pressão exercido pelo jornalismo pode fazer a diferença, que dão mais prazer a Kiratiana. Ela está no Brasil com a missão de mostrar que Rio de Janeiro é esse que vai abrigar a próxima edição dos Jogos Olímpicos, em 2016. Segundo a jornalista, nesta jornada não existem temas proibidos, nem tabus. Diz que tampouco se deixa levar pelos lugares-comuns que fazem parte da suposta “zona de conforto” dos correspondentes estrangeiros baseados por aqui. “Minha busca é sempre por histórias inéditas.”

Nesta entrevista a 1 Papo Reto, Kiratiana fala de sua atuação profissional, do choque cultural e dos dilemas vividos por alguém assumidamente workaholic que tem de trabalhar e viver em uma cidade como o Rio de Janeiro, na qual tudo convida para o ócio. Criativo, é claro.

Boa leitura.

Sua carreira começou em um nível bastante elevado, como coautora de um guia que mostra a latente questão racial na Universidade Harvard. Como esse aprendizado foi útil para sua carreira como jornalista? 

Todas as minhas experiências acadêmicas me ajudaram a chegar ao ponto onde estou hoje, como correspondente internacional free-lancer. Após a faculdade eu passei um ano viajando ao redor do mundo. Além disso, também foquei minha atuação em temas do chamado jornalismo comunitário. Durante seis anos também trabalhei na área de marketing digital. Então, ao completar 31 anos, descobri o que realmente queria fazer: aproveitar meu trabalho como jornalista para denunciar as injustiças sociais. Foi com essa bagagem que eu cheguei ao Brasil.

Você também atuou em jornais proeminentes como o The New York Times. Sabemos que a presença de mulheres nessas áreas ainda é pequena e da mulher negra, ainda mais. Como você conseguiu “furar” este cerco?

Eu trabalhei em mídias sociais no The New York Times durante um estágio. Eu consegui o posto porque tinha exatamente as habilidades que eles queriam: experiência no gerenciamento de grandes contas de mídia social. É claro que possuir um diploma de Harvard ajudou muito. Mas é muito difícil integrar o time de repórteres deste jornal, pois eles exigem uma ampla experiência.

Sua carreira também registra uma passagem pelo jornalismo comunitário. Aqui no Brasil  acreditamos que a mídia regional e comunitária gozam de grande prestígio nos EUA. Como esta experiência foi importante em sua formação?

Então, depois de passar um ano viajando, período que incluiu quatro meses no Brasil, eu voltei para Chicago onde atuei como jornalista comunitária em Hyde Park. Trata-se da comunidade onde o presidente Barack Obama viveu e trabalhou antes de se tornar presidente. Eu trabalhei para um pequeno jornal chamado Hyde Park Herald, onde cobria a área de educação. Este é o lugar onde eu aprendi que os fundamentos do jornalismo são os mesmos, não importa se o meio é digital ou é o papel. É sempre uma questão de falar com as pessoas, construir relações de confiança e não perder de vista a necessidade de apoiar o trabalho também na pesquisa de dados e estatísticas. Minha experiência nesta área, especialmente na cobertura de escolas públicas, me ajudou a entender como que as políticas públicas afetam o dia a dia dos cidadãos americanos mais pobres.

Foi um período bastante rico em matéria de aprendizado e emocionante do ponto de vista pessoal, porque coincidiu com a época na qual o sistema de educação pública de Chicago passava por uma mudança profunda que incluía a gestão privada de algumas escolas, em meio a um cenário de pais revoltados e professores e diretores desmotivados. Em função desta experiência, o tema educação passou a ser uma de minhas prioridades. Por conta disso, penso em escever sobre educação no Brasil. Noto que o efeito da política de cotas raciais tem sido positivo para os negros e os mais pobres.

O livro “The Black Guide to Life at Harvard” (ainda sem título em português), escrito em parceria com o colega Marques Redd, acabou sendo o primeiro de uma série de publicações que incluem detalhes de sua experiência em Londres e em Paris, com dicas de turismo a partir da perspectiva da comunidade africana. O que a motivou a produzir estas obras?

Eu sou o tipo que gosta de compartilhar todas as informações que acumula ao longo de sua trajetória, como uma forma de ajudar as pessoas. Neste contexto, fazia sentido escrever o livro sobre Harvard para que outros estudantes afro-americanos tivessem uma experiência bem-sucedida lá. O mesmo vale para os trabalhos sobre Paris e Londres cujo objetivo é ajudar as pessoas a explorar um lado diferente destas cidades. Agora, estou escrevendo um guia de viagem com roteiros afro-brasileiros, que pretendo lançar em abril.

Mais recentemente, sua série de viagens acabou se ligando aos Jogos Olímpicos. Foi por conta da Rio-2016 que você voltou a viver no Brasil?

Exatamente. Pretendo cobrir a realização dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos. Sou vidrada em todas as modalidades esportivas e eu me sinto honrada em poder fazer a cobertura jornalística de como a cidade está se preparando para o evento que reúne cultura e esporte. Mas isso não significa dizer que não pretendo fazer uma cobertura crítica, mostrando os eventuais problemas de organização e também da cidade. Outros assuntos que estão em meu radar são os temas ligados à comunidade afro-brasileira, à educação e às injustiças sociais.

Antes de desembarcar no Brasil você tinha uma imagem pré-concebida do país, pelo fato de contarmos com uma população majoritariamente afrodescendente?

Eu já sabia desta característica brasileira. Como afro-americana eu sempre me identifiquei com os brasileiros mesmo antes de conhecer algum morador do país. Por termos uma trajetória comum, a diáspora africana, isso fez com que eu decidisse, em 2003, incluir o Brasil em meu giro global em regiões com esta característica. Comecei pelas nações da África Ocidental, como a África do Sul, vim para o Brasil, e, em seguida a Europa. Confesso que me surpreendi ao descobrir que os brasileiros mantêm fortes ligações com a África. Algo que não ocorre no caso dos afro-americanos.

O que você vive em seu dia a dia no Rio de Janeiro coincide com a imagem que você tinha da cidade?

Quando visitei pela primeira vez Brasil, há 12 anos, eu passei três semanas no Rio e me dediquei unicamente à agenda típica dos turistas. Infelizmente, eu não tive tempo de conhecer bem a cidade. Agora que eu estou vivendo aqui, posso dizer que amo de paixão. Mesmo sendo assumidamente workaholic o Rio de Janeiro é perfeito. Se bem que, aqui, é impossível ser workaholic porque as pessoas se dedicam diariamente a atividades ao ar livre como ir a praia.

Em geral, os correspondentes estrangeiros se pautam por estereótipos do tipo favela, funk, samba e crime para tentar emplacar as histórias que escrevem sobre o Brasil. Você tem tido facilidade de publicar suas reportagens?

Eu não sou contra quem escreve sobre esses assuntos. Contudo, eles não fazem parte de minha linha de atuação que é mais focada em encontrar histórias de pessoas capazes de inspirar as demais. Mas não estou presa a um ou outro tema. Agora mesmo estou levantando personagens para uma reportagem sobre lutadoras de MMA. Meu primeiro instinto é buscar estas pessoas nas favelas. Por que olho primeiro para a favela quando penso neste tipo de pauta? Porque a maioria das histórias sobre o Rio são escritas a partir do prisma da favela. Quanto ao funk… Bem, parece que o gênero já foi cooptado pelo mundo corporativo e deixou de ser uma música underground. Mas creio que sempre existirão histórias bacanas sobre samba, por tratar-se de um ritmo que é patrimônio de todo o país. Mas, minha busca é sempre por histórias inéditas.

Não sei se você já notou, mas os afro-brasileiros, em geral, estão muito longe dos círculos de poder e de prestígio social, político e econômico. Alguns indicadores sociais nos colocam no mesmo patamar dos negros americanos da década de 1960. Como estrangeira qual é a sua visão sobre a questão racial no Brasil um país singular onde todos dizem existir racismo, porém ninguém se assume como tal?

Isso sempre foi algo que soou muito estranho para mim. Sabia que havia toneladas de pessoas negras no Brasil, porém não tinha ideia de que seu poder político e econômico era tão limitado, especialmente em comparação com os Estados Unidos. Eu me apaixonei pelo Brasil quando morei em Salvador. Agora, sinto uma angústia quando vou à cidade, pois sei que mesmo contando com uma população de 80% de negros nunca houve um prefeito negro e a riqueza econômica deste contingente é limitada.

O interessante é que algumas pessoas chegaram a me relatar que gostariam que tivesse havido segregação racial no Brasil, pois, desse jeito, a comunidade afro-brasileira seria, hoje, mais unida e mais forte. Eu nunca desejaria ódio ou segregação contra nenhum grupo ou em qualquer país, mas eu entendo o ponto de vista de quem defende esta linha de raciocínio.

Sua pergunta toca em um ponto importante que é o racismo institucional sobre o qual foi assentada a sociedade brasileira. As pessoas não são tecnicamente racistas, no entanto, todas as atividades, passando pela educação e a economia foram organizadas para manter um grupo inteiro como subclasse.

Certa vez, o reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares, José Vicente, disse que `É difícil ser negro em São Paulo´. A partir de sua experiência global, você diria que é mais difícil ser mulher e negra no Brasil do que na França, na Inglaterra ou nos EUA?

É impossível responder esta pergunta sob a ótica das moradoras destes países, pois desfruto de certos privilégios em relação a determinados habitantes destes países. Mas eu entendo quando o reitor Vicente faz esta colocação. Porém, pelos padrões locais posso ser considerada, tecnicamente, uma mulher negra rica no Brasil. Por isso, no geral, não encontro barreiras. Mas existem alguns aspectos da minha experiência que eu acho difícil. Eu acho que é difícil ser uma mulher de pele clara que se enxerga como uma mulher negra. Nem sempre as pessoas entendem isso, ao contrário do que acontece nos EUA onde uma gota de sangue basta para lhe identificar como negra.

No lado pessoal, o que você sente mais falta: da família, dos amigos ou do American Way of Life?

Claro que eu tenho saudades da família e dos amigos. Porém, também sinto falta de alguns alimentos típicos e da igreja que eu frequentava. Muitas vezes me pego sonhando com algum prato típico americano com frango frito, hambúrguer, biscoito, panqueca e o chamado `soul food´. Eu nunca vivi em um lugar onde é tão difícil obter uma boa porção de frango frito. Aqui só existe o frango à passarinho. Embora o Rio de Janeiro seja uma cidade cosmopolita é difícil conseguir o tipo de comida que lembra a minha terra.  Também sinto falta da Igreja Metodista Episcopal Africana, que frequentava e em torno da qual fui criada tendo como referência o orgulho e a justiça social. Especialmente quando soube do massacre na igreja em Charleston, na Carolina do Sul. Lembrei dos sermões e dos encontros em minha igreja, um espaço que sempre me alimentou espiritualmente e culturalmente.

Ainda pelo lado pessoal, você considera mais difícil se relacionar com homens brasileiros do que com os americanos? 

Esta é uma pergunta engraçada. Eu sempre brinco com meus amigos daqui dizendo que estou procurando um homen negro, inteligente, rico e lindo. Mas sendo bastante sincera, quero mesmo é um homem negro educado, bem-sucedido e pelo qual eu me sinta atraída. Toda vez que eu digo isso sou olhada como se fosse um ET. Acho que isso ajuda a explicar alguns aspectos que envolvem as relações de namoro das mulheres negras bem-sucedidas. No geral, não tenho dificuldades de me relacionar com os homens no Brasil. Só que ainda não consegui entrar em suas mentes, por conta das diferenças culturais. Nos EUA, um beijo significa algum compromisso, diferente do que vemos aqui no Brasil.

Causa-lhe espanto o fato de haver tantos relacionamentos inter-raciais no Brasil? 

Realmente não. Eu acho ótimo que existam relações inter-raciais seja por meio de amizade ou no plano afetivo. Por exemplo, eu adoro a forma como os brasileiros brancos se conectam com a cultura afro-brasileira. É tão raro nos EUA ver um branco que conhece e compreende a cultura negra. Mas não posso deixar de considerar que há algumas questões sociais subjacentes que estão sendo jogadas fora em alguns romances inter-raciais. Alguém poderia escrever um livro inteiro sobre estas questões. Mas não serei eu.