Americanos celebram o Mês da História Negra com censura, esperança e luta

Americanos celebram o Mês da História Negra com censura, esperança e luta

E vamos de Black History Month (Mês da História Negra)! Oficializada pelo Congresso americano em 1986, a comemoração acontece em fevereiro, mês de aniversário de Abraham Lincoln e Frederick Douglass, duas figuras muito importantes para o movimento anti-escravocrata nos Estados Unidos, de acordo com a Biblioteca do Congresso.

Lincoln, um homem branco, proclamou a libertação de escravos no território Americano controlado pelos estados do norte enquanto presidente em 1863 – no contexto da Guerra de Secessão, ele não tinha controle do território inteiro atual. Desde o começo de sua carreira política, ele falava abertamente sobre sua posição anti-escravocrata, apesar de defender um fim gradual da escravidão e só apoiar publicamente os direitos políticos para certos negros – somente os “inteligentes” ou “veteranos de guerra” – em seu último discurso em 1865, de acordo com a biblioteca e o Serviço de Parques Nacionais, que administra lugares históricos no país.

Aqui, é importante ressaltar que ele falou de igualdade entre homens; as mulheres só conquistaram direito ao voto em 1920, e homens negros e mulheres negras só tiveram seu direito ao voto protegido por lei em 1965 (100 anos depois do discurso de Lincoln), de acordo com a Administração de Arquivos e Registros Nacionais.

Já Frederick Douglas, autodeclarado escravo liberto ao fugir do sul dos Estados Unidos, ficou conhecido por seu ativismo anti-escravocrata. Ele foi escritor, jornalista, orador, político, entre outros atributos, sempre defendendo a abolição da escravidão e o direito dos negros libertos, de acordo com os registros históricos. Após fugir e aprender a ler e escrever por conta própria, Frederick se juntou à Sociedade Anti-Escravocrata de Massachusetts e passou a viajar pelo país para divulgar as ideias do movimento.

Douglas fundou um dos principais jornais abolicionistas de sua época, o The North Star (A Estrela do Norte), em 1847, e em 1863 confrontou Lincoln na Casa Branca sobre a desigualdade de pagamento e a ausência de promoções e proteções para soldados negros na Guerra de Secessão.

As duas figuras se encontraram em outras duas ocasiões: em 1864, temendo perder a reeleição, Lincoln pediu a Douglas que ajudasse mais negros escravizados no sul dos Estados Unidos a fugirem para o norte. E após ser reeleito, em 1865, Lincoln convidou Douglas para a cerimônia de posse de seu segundo mandato. 

Passado, presente e futuro

Atualmente, o Mês da História Negra é celebrado a partir de um tema escolhido a cada ano pela Associação para o Estudo da Vida e História de Americanos-Africanos. O de 2023 é a Resistência Negra no passado, presente e futuro. No site da entidade, seus organizadores falam sobre a importância do tema no contexto atual, em que alguns estados americanos têm restringido o ensino de história negra nas escolas públicas, alegando que certas pautas seguem agendas políticas.

De acordo com o jornal The Washington Post, semanas antes desta edição do Mês da História Negra, parlamentares do partido Republicano de Virginia, Arkansas e Flórida trouxeram ao debate público discussões sobre se professores deveriam ensinar sobre o movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) nas escolas, se deveriam ser impedidos de ensinar sobre racismo estrutural, e se os currículos em escolas deveriam mudar seu foco, se distanciando da história negra e da indígena.

Desses estados, o Arkansas, por ordem de sua governadora, impediu professores em escolas de ensinarem a respeito de “certos assuntos” envolvendo raça, contou o jornal, e existe um processo em discussão na Virgínia para mudar o currículo de história. Nos últimos três anos, aproximadamente 18 leis foram aprovadas para controlar discursos relacionados à raça em sala de aula, nos estados americanos, de acordo com o jornal.

Em contrapartida, Connecticut, Delaware, Maine e Rhode Island aprovaram leis a favor do ensino de história negra em escolas, nos últimos quatro anos, algumas das quais incluem até discussões sobre genocídio e herança negra, contou o jornal. No total, 12 dos 50 estados americanos têm leis que exigem o ensino de história Africana-Americana nas escolas.

Neste cenário, o tema da celebração neste ano tenta transmitir à comunidade afro-americana a mensagem segundo a qual não se deve perder a esperança nem deixar de lutar, de acordo com a Associação para o Estudo da Vida e História de Americanos-Africanos. Da minha parte, acredito que a ideia de incluir o presente e o futuro na celebração é extremamente relevante. Ainda focamos muito no ensino, principalmente no Brasil, do passado escravocrata, apagando as conquistas do presente e os projetos de futuro de homens e mulheres não-brancos, especialmente os afro-descendentes e os indígenas.

Como aprendi, ao escrever uma reportagem sobre a professora americana Brianna Perkins, que fundou uma livraria para crianças negras, livros negros tendem a focar no passado e em teorias anti-racistas, mas raramente no presente. Seu objetivo é apoiar autores independentes que escrevem livros sobre crianças negras, relatando os momentos de seu cotidiano: brincando, estudando, indo para a escola e sendo felizes. 

“Representação importa, sempre e de todos os jeitos”, ela me disse.

Isabela Rocha

Autor: Isabela Rocha

Sobre o/a Autor(a) Isabela Rocha é jornalista freelancer. Apaixonada por escrita, comunicação e justiça social, seu sonho profissional é trabalhar para o avanço da igualdade de gênero e do combate ao racismo. Ela acredita no poder democrático das notícias e sempre busca contar histórias relacionadas à diversidade para normalizar a vida de minorias sociais.


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