Diversidade no tabuleiro

Diversidade no tabuleiro

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O mercado de games movimenta cifras bilionárias pelo mundo afora. Tanto que já é mais relevante, do ponto de vista financeiro, que a indústria do cinema.

Mas quando se fala em games, o que vem à mente é um joguinho eletrônico que tem no público masculino sua maior fatia de fãs, certo? Não é bem assim. As pesquisas mostram que os consumidores desse tipo de produto são predominantemente do sexo feminino e, no quesito idade, estão distribuídos ao longo de toda pirâmide etária.

Contudo, apesar de parecer um espaço democrático e plural, o mercado de jogos reproduz muitos dos pontos negativos da sociedade na qual está inserido: machismo, violência, falta de diversidade dos personagens, são alguns deles.

O desejo de fazer algo prático para ajudar a mudar este padrão foi uma das motivações para a entrada das empreendedoras Thays Leonel e Marina Takejame no mundo dos jogos de tabuleiro. Desde março de 2020, elas comandam a \uia/ (grafado em letra minúscula, mesmo, e que surgiu a partir da junção das vogais da palavra Lúdica).

“Nosso objetivo era proporcionar experiências lúdicas que fossem catalisadoras de mudanças de postura e da forma de enxergar o mundo”, explica Marina. “Nossos jogos exploram temas da diversidade que normalmente só são tratados em família apenas quando surge algum problema.”

Universo uia thays Marina diversidade no tabuleiro 1 papo retoMarina (à esq.) e Thays as fundadoras da startup \uia/Apesar do pouco tempo de vida, a startup já se lançou em uma iniciativa ousada logo no segundo game. Batizado de 7famílias, ele passa longe da representação clássica da “Família Doriana”, composta de pai, mãe, filho e cachorro. “Não buscamos famílias fora do tradicional, mas sim as reais, que encontramos no dia a dia”, destaca.

Para bancar sua produção, elas criaram uma vaquinha virtual na plataforma Catarse, cujo desafio é levantar R$ 35 mil. O montante será usado na impressão do jogo e para cobrir as despesas de produção e divulgação. A escolha de 7famílias se deu em meio a pesquisas de jogos de tabuleiro de domínio público.

A preocupação com a diversidade perpassa todo o projeto. Desde a seleção dos sete ilustradores, baseados em diversas regiões do país e com estilos distintos de vida e de traço bem originais, até o produto final que contempla inúmeras visões de mundo e de sociedade.

Estes princípios também nortearam a elaboração do primeiro game: Duelo; que estimula o debate e o conhecimento da trajetória de personagens da história mundial. Mais uma vez, foi preciso adequar o produto ao “espírito do tempo”. Afinal, em sua fase inicial, grande parte das 100 cartas retratavam personagens masculinos e brancos.

Marina se diz animada com a trajetória de mercado da \uia/. Além do e-commerce da startup, o game pode ser encontrado em três pontos de venda na cidade de São Paulo: Maritaca Brinquedos, Banca Curva e Goiaba Urbana. “O mais legal é que os donos dessas lojas é que nos procuraram para parceria”, diz.

PRÓPOSITO DE VIDA

A guinada empreendedora da dupla de especialistas em comunicação (Marina é graduada em relações públicas, e Thays em propaganda e marketing) surgiu a partir da maternidade, que desencadeou a busca por qualidade de vida. Foi aí que elas decidiram sair do mundo corporativo da caótica São Paulo e, mais tarde, voltar para o interior.

Thays conta que a \uia/ ainda está longe de se tornar um negócio lucrativo e do qual elas possam tirar o sustento dos filhos. “Ainda estamos na fase de investimentos e na torcida para que a empresa decole”. Segundo ela, o ponto de equilíbrio se dará quando a startup estiver produzindo quatro jogos por ano.

Criatividade e pesquisa não parecem ser um problema: “Estamos com cinco jogos em fase de desenvolvimento. Faltam recursos para colocá-los em produção e venda”, lamenta. Enquanto isso, elas mantém um pé na comunicação, trabalhando em projetos para antigos clientes.