Hellen Nzinga: nome e porte de princesa, quer dizer, rainha!

Hellen Nzinga: nome e porte de princesa, quer dizer, rainha!

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Desde 2018, a baiana Hellen Caroline Nzinga, 26 anos, vive uma verdadeira montanha-russa de emoções e inquietações. Muitas delas foram discutidas à exaustão nas sessões de terapia. Outras tantas, ajudaram a dar forma a suas iniciativas no campo do empreendedorismo focado na inovação.

A healthtech EcoCiclo, startup que fabrica o primeiro absorvente íntimo biodegradável do Brasil, da qual é cofundadora, surgiu a partir de uma interlocução com uma moradora de Fazenda Coutos, bairro do subúrbio de Salvador, numa sexta-feira de meados de outubro de 2018. O encontro se deu no interior de uma farmácia do bairro quando ela estava, literalmente, contando as moedas para adquirir um absorvente. Vendo a angústia da vizinha, Hellen se ofereceu para inteirar o valor da compra. “Absorvente é item de necessidade básica para a saúde da mulher, por isso ninguém deveria passar por este constrangimento”, diz.

O fato acabou servindo de gatilho para que a jovem pesquisasse sobre menstruação, com foco nos hábitos e costumes das mulheres brasileiras. Foi aí que Hellen se deu conta de temas como a pobreza menstrual, que afeta a vida de cerca de sete milhões de adolescentes e mulheres brasileiras. Muitas delas se veem impedidas de frequentar a escola ou de trabalhar porque não dispõe de recursos para adquirir absorvente. Na época, o assunto ainda não havia ganho o merecido espaço na agenda social e política, tampouco na mídia. Mesmo assim, se tornou o gatilho para o processo de conclusão da jornada no Pró-Líder, um rigoroso programa de desenvolvimento de lideranças jovens.

EcoCiclo cofundadoras Hellen Nzinga 1 papo reto(a partir da esq.) Adriele, Karla, Patricia e Hellen, sócias da EcoCiclo, antes de apresentação na Universidade Michigan“Naquele momento, estava vivendo a angústia de definir qual seria o legado que eu deixaria em forma de um projeto capaz de impactar um milhão de pessoas”, conta. Hellen diz que a ideia de criar o primeiro absorvente com preocupações ambientais (biodegradável) e sociais (cuja produção envolvesse mulheres das periferias) foi abraçada, de imediato, pelas colegas Karla Godoy, 25 anos, e Patricia Zanella, 25 anos, que integravam seu grupo no Pró-Líder.

Juntas, elas lapidaram o negócio que já se mostra bastante promissor e até ganhando o mundo. E não é força de expressão. Prova disso é que elas já apresentaram o produto na Universidade Michigan, nos Estados Unidos. No ano passado, a EcoCiclo venceu a etapa local da Climate Launchpad Americas e Caribe e foi a representante brasileira na grande final. Tamanha exposição acabou chamando a atenção de aceleradoras de negócios de impacto social, como a Vale do Dendê, baseada em Salvador, e o Instituto Ekloos, do Rio de Janeiro. Sem contar os investidores-anjos, que fizeram pequenos aportes para ajudar a estruturar a empresa.

Os cerca de R$ 100 mil captados serviram para que o quarteto – no meio da jornada engenheira química Adriele Menezes, de 27 anos, se juntou ao trio de cofundadoras – colocasse em ação as diversas etapas do projeto. Desde as pesquisas envolvendo materiais até hábitos de consumo das mulheres, além da prototipagem e o desenvolvimentos de máquinas para a fabricação do produto. Ao tabular os dados do levantamento envolvendo duas mil mulheres, elas concluíram o seguinte: o que é prático (o absorvente convencional) não é sustentável, nem saudável. E o que é sustentável (o copinho coletor) não é prático.  

Com isso em mente elas afinaram as propriedades do produto. Os absorventes da EcoCiclo têm o formato idêntico aos convencionais, custam o mesmo valor, porém, são biodegradáveis e hipoalergênicos. A produção dos protótipos e lotes iniciais para testes fica a cargo de costureiras da periferia de Salvador. Para viabilizar as vendas, elas criaram uma loja virtual, que já evoluiu para um marketplace focado na venda de produtos sustentáveis.

A seleção é feita por edital público e as escolhidas passam por inúmeros treinamentos e consultorias. Hoje, incluindo as sócias, 20 mulheres tiram seu sustento de iniciativas ligadas à EcoCiclo. “Graças à parceria com a Prefeitura de Salvador faremos uma nova chamada, para incluir novas empreendedoras”.

Mas não pense, caro leitor/cara leitora, que a caminhada tem sido fácil. A falta de conhecimento e os tabus que rondam o tema menstruação ainda são obstáculos à jornada das empreendedoras. “As pessoas que têm a experiência da menstruação, sempre entenderam nosso business mais facilmente que os homens”, diz. “Muitas vezes, eles têm dificuldade até de dizer a palavra e ficam buscando sinônimos.”

Diante dessas barreiras, elas decidiram focar em potenciais investidoras. “Quando nossa interlocutora é uma mulher, as reuniões duram pelo menos 30 minutos. Não há constrangimentos e o diálogo flui sem preconceitos”, destaca. Foi nessa caminhada que elas conheceram a superexecutiva Simone Sanches, ex-diretora geral da subsidiária da Sephora. Ela terá um papel de destaque na nova fase idealizada pelas fundadoras da EcoCiclo. Especialmente para Hellen e Adriele, que saíram da casa dos pais e dividem um apartamento no bairro de Ondina, área nobre da cidade.

Hellen Nzinga pro liderHellen ao lado dos colegas da turma do Pró-Líder, em 2018É lá que estão os equipamentos destinados a testagem das diversas versões do absorvente ecológico. O home office próximo à praia tem sido importante no “processo de descompressão” das angústias que surgiram a partir da pandemia, especialmente para os empreendedores. Hellen, graduada em publicidade e propaganda pela Universidade Católica de Salvador (UCSAL), diz que caminhar pela orla ajuda a renovar o astral e a aumentar a inspiração, em tempos de distanciamento social.

Meu primeiro encontro com Hellen aconteceu em meados de 2017, quando ela fez às vezes de modelo para um ensaio fotográfico no âmbito da Ocupação AfroFuturista, promovida pela Vale do Dendê e o Instituto Mídia Étnica, em Salvador. O sorriso largo e o jeito suave, mas assertivo, de colocar suas ideias encantam os interlocutores. Como tantas mulheres de sua geração, a cofundadora da EcoCiclo conhece seu papel neste mundo e não se intimida diante das inúmeras barreiras que surgiram em seu caminho.

Talvez por influência do sobrenome, homônimo ao da poderosa rainha Ana de Sousa (batizada de Nizinga Mbandi, em quimbundo) que comandou o Reino de Matamba e resistiu bravamente ao domínio português, na atual Angola. “Sou muito grata pelas coisas que conquistei até aqui: sou uma mulher negra, bonita e que comanda uma empresa e, nas horas vagas, escreve projetos para diversos setores”.

Pois é. Em breve, os seguidores e seguidoras de 1 Papo Reto terão a oportunidade de acompanhar outras histórias e conquistas dessa bela, antenada e inovadora empreendedora soteropolitana. Fiquem ligados!