O garimpo e a ganância que destroem coisas belas

O garimpo e a ganância que destroem coisas belas

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Em 1981, milhares de homens migraram para Serra Pelada, no Pará, em busca de ouro. Essa busca nunca cessou. Contudo, nos últimos meses, a cena vem se repetindo com bastante intensidade em diversos pontos da Amazônia. Recentemente, vimos, com bastante espanto, a invasão de garimpeiros nas cercanias de Manaus. Os rios da região se transformaram em pista de corrida, com centenas de balsas rumando em direção ao rio Madeira.

Uma verdadeira invasão movida pela lógica do lucro fácil e predatório, disfarçado de atividade extrativista mineral. A ação de políticos e integrantes do poder público acaba legitimando um tipo de pensamento que normaliza a agressão ambiental. É daí que vem o discurso de defesa da legalização da atividade, mesmo quando sua realização se dá em confronto com a lei.

Há 35 ano, na comunidade Serrinha, Ercilia Desana, minha mãe, era apenas uma criança que não entendia por que tantas pessoas estranhas e com características totalmente diferente das dela estavam no seu território.

Os garimpeiros partem de todas as regiões do país, se aproxima de nossos parentes e tentam tirar o máximo de informações possíveis, muitos compartilham a facilidade de ganhar dinheiro fácil e com promessas de construções de estruturas para a comunidade tentando pactuar um acordo, outros instalam-se sem permissão, praticando opressão e violência com os povos que pertencem àquele local.

A menina Ercilia guardava uma pequena pepita de ouro dada pelo seu pai João Hilário que achou dentro de um igarapé. Uma senhora com a aparência muito bonita, perguntou se Ercilia sabia onde podia encontrar as pedrinhas brilhosas. Minha mãe respondeu que sim e a levou até o igarapé. Atualmente o local encontra-se revirado pelos garimpeiros que deixaram danos irrecuperáveis, destruição em larga escala causados pela ganância.

horopakp carina desana a forca do garimpo que destroi 1 papo retoEntrada da vila onde Ercilia Desana, minha mãe, viveu parte da infânciaAlém do desmatamento, violência, invasão, doenças, drogas, envenenamento, poluição e opressão, temos que lidar com outro preocupante fator econômico. A disparada no preço do ouro que fez disparar o preço do ouro no mercado, incentivando a exploração desenfreada, especialmente o garimpo nos territórios indígenas, o que é uma atividade ilegal, no Brasil. As autoridades de meio ambiente não nos protegem mais. E isso é consequência direta do desmonte do sistema de fiscalização, fragilizando as ações de repressão ao garimpo ilegal.

Os percasan mashã (brancos) contaminam a terra e deixam suas marcas atravessadas em nosso rios e igarapés, a mãe igarapé tenta fortalecer suas filhas para mais uma luta contra os comedores de terra, não conseguimos ver, mas sentimos que elas resistem juntos com suas irmãs menores que vivem nesse universo.

Os espíritos maléficos contaminam também nossos parentes que sentem atraídos pela cobiça do ouro, mas entendemos que precisamos continuar resistindo e existindo pela terra, essa terra que cabe não só a nós, povos originários, mas a todos os habitantes do mundo.

Com tantos retrocessos impostos ao bem-estar dos povos indígenas, hoje vivemos um momento tão grave cujo acúmulo de problemas e agressões não cabem em um texto. Para aplacar a situação, ecoamos nossos cantos em voz alta e fazemos nossas rezas para que os espíritos da floresta nos protejam nesse cenário apocalíptico que não parece tão distante.

Em à A queda do céu, Davi Kopenawa narra a crença de que o céu entraria em colapso se um dia a floresta desaparecesse. E enquanto isso, estamos aceitando invasores, antivacinas, discursos de ódio e queimadas intencionais.

Qual a esperança do nosso futuro?

 

Nota da redação: a recente invasão dos garimpeiros ao rio Madeira deixou como saldo a contaminação de mercúrio nos ribeirinhos, em uma quantidade 3 vezes maior que o máximo recomendável para a saúde.

 

 

Horopakó (Carina Desana)
Author: Horopakó (Carina Desana)
Sobre o/a Autor(a)
Horopakó (Carina Desana) é integrante do povo Desana do Alto rio Negro, situado na fronteira com a Venezuela e a Colômbia. Ativista das causas sociais, atua como educadora e professora indígena na comunidade de Novo Airão (AM), também é sócia da mãe na grife Ercília Arte Desana.
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