Parceria entre Instituto Recicleiros e AEPW pretende impulsionar a reciclagem

Parceria entre Instituto Recicleiros e AEPW pretende impulsionar a reciclagem

Desde a aprovação da Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS), instituída pela Lei nº 12.305/2010, muitas coisas aconteceram na cadeia produtiva brasileira: acordos setoriais, maior pressão sobre o poder público e multiplicação de cooperativas de reciclagem. Apesar disso, o país se mantém em uma posição vexatória, em nível global, neste quesito. A recém-divulgada pesquisa das universidades Columbia e Yale, dos Estados Unidos, apontam o Brasil como o quarto pior em reciclagem. De uma geração de 82 milhões de toneladas de lixo, apenas 2% voltam ao sistema produtivo.

Isso acontece devido a inúmeros fatores. Um deles, sem dúvida, é que poucas iniciativas conseguiram tratar da destinação dos resíduos pós-consumo de um modo mais estratégico. E é neste local de excepcionalidade que desponta o Instituto Recicleiros, cuja atuação se apoia em três pilares: capacitação do gestor público, parceria com empresas e organizações sociais globais e implantação de unidades de triagem e comercialização de resíduos.

O processo se inicia com o lançamento de um edital, no qual os gestores municipais se inscrevem e, caso preencham os requisitos, passam por um treinamento. Finda esta etapa, o Instituto implanta uma central de triagem e comercialização de recicláveis, na cidade. “Todos os custos são cobertos pelo programa”, conta Ana Carolina Finardi, analista de novos negócios do Instituto Recicleiros. Desde 2016, a entidade já firmou parceria com 10 prefeituras de todas as regiões do país: Piracaia e Garça (SP), Três Rios (RJ), Guaxupé (MG), Campo Largo (PR), Caçador (SC), Cajazeiras (PB), Ji-Paraná (RO), Naviraí (MS) e Jericoacoara (CE).

A de Piracaia, cidade situada numa importante bacia hidrográfica da serra da Mantiqueira, começou a operar em maio do ano passado. Em um amplo galpão, 16 cooperados atuam na seleção de embalagens de plásticos, papelão e vidro, além de objetos de metal. A unidade recebe o material descartado pelos moradores em ecopontos e outros coletados pela frota de caminhões da empresa de limpeza urbana. Tudo que é processado ganha um código, o que permite o rastreio do produto até a venda para recicladora que fará a reinserção na cadeia produtiva. Além disso, um software de gestão ajuda a monitorar a produtividade e o ganho dos cooperados. 

Flavia Natero lider de unidade Recicleiros 1 papo retoFlavia Natero, do Instituto Recicleiros 

Mais que apenas gerar renda para catadores e ajudar as cidades a prolongar a vida útil de aterros sanitários, o objetivo do Instituto é criar um novo paradigma na gestão de resíduos e uma nova consciência socioambiental. “Não falamos apenas em logística reversa, mas sim de atitudes capazes de gerar impacto em diversos segmentos: promoção social dos cooperados, proteção do meio ambiente e da educação”, destaca Ana Carolina.

A unidade, comandada por Edilson Luiz, presidente da cooperativa, e Flavia Natero, líder de unidade do Instituto Recicleiros, processa mensalmente cerca de 19 toneladas de resíduos. Trata-se de um volume ínfimo se levarmos em conta a  capacidade instalada: “Poderíamos estar processando 180 toneladas por mês e empregando 46 pessoas”, explica Edilson. Para atingir essa marca, Flavia aposta nas campanhas de conscientização dos moradores e das empresas baseadas em Piracaia. “Dependemos do fluxo de coleta feito pela prefeitura e das entregas voluntárias dos cidadãos.”

A parceria com cada cooperativa prevê um período de incubação de cinco anos, no qual o Instituto se responsabiliza por todas as etapas. Desde a implantação da cooperativa até a aquisição de maquinário, equipamentos de segurança e outros materiais. O total estimado de investimento é de R$ 5 milhões. Para conseguir os recursos, o Recicleiros recorre a grandes geradores de resíduos, como empresas de embalagens de papelão e vidro, por exemplo, além de coalizões globais.

Neste último quesito, a novidade é a parceria com Alliance to End Plastic Waste (Aliança para Acabar com Resíduos Plásticos - AEPW). E as metas são ambiciosas para o período 2022-2026: implantação do programa em 60 cidades, dos 26 estados; abertura de 3 mil postos de trabalho para catadores e reciclagem anual de 30 mil toneladas de plástico. Desde o início de suas atividades, as 10 unidades do Instituto Recicleiros já processaram cerca de 5 mil toneladas de materiais, graças à ação direta de 230 catadores. A diferença entre o realizado e o acordado com a AEPW dá bem a dimensão do tanto de trabalho que os gestores do Instituto têm pela frente.

Para virar o jogo, eles contam com argumentos que “soam como boa música” aos ouvidos dos envolvidos no sistema. No caso das prefeituras, o apelo é a possibilidade de contar com assistência qualificada, e gratuita, para implantar uma política pública obrigatória, como determina a PNRS. As empresas, por sua vez, ganham com a redução do passivo ambiental, o que, em última análise, ajuda a melhorar sua imagem no quesito ESG (ações nos campos ambiental, social e de governança). Por último, mas não menos importante, tem a qualificação e profissionalização de antigos catadores, que passam a contar com direitos sociais e maior previsibilidade econômica.

Unidade piracaia instituto recicleiros 1 papo retoSoftware ajuda na gestão da unidade de Piracaia (SP)

“Os sistemas de gestão de resíduos às vezes podem ter dificuldades para alcançar a sustentabilidade financeira. Para cumprir nossa missão de acabar com os resíduos plásticos, a Aliança se esforça para integrar modelos de solução com princípios de economia circular visando sistemas comercialmente viáveis ​​em escala”, diz Steve Sikra, vice-presidente e chefe das Américas da Aliança. “Juntamente com a Recicleiros, visamos reduzir o descarte de resíduos e aumentar as taxas de reciclagem, criando empregos e um senso de comunidade para o povo brasileiro. Estamos ansiosos para ajudar este projeto a se expandir em todo o Brasil”.

 

Rosenildo Ferreira
Author: Rosenildo Ferreira
Sobre o/a Autor(a)
Rosenildo Ferreira é o fundador e publisher do portal de notícias 1 Papo Reto e cofundador da Vale do Dendê.
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