Gastronomia com afeto e bons resultados

Gastronomia com afeto e bons resultados

Em meados de fevereiro, a empreendedora social Beatriz Mansberger abriu a Casa Chef Aprendiz, no bairro de Santo Amaro, para receber um grupo de jovens para um happy hour. Em comum, eles possuem o fato de comandarem negócios disruptivos baseados em tecnologia, liderarem iniciativas de impacto social ou terem percorrido alguma jornada extraordinária. Apesar de todos residirem na cidade de São Paulo, muitos deles jamais haviam se encontrado. A rigor, foram saber da existência uns dos outros quando folhearam a prestigiosa lista Forbes Under 30 2021 – da qual o editor de 1 Papo Reto é um dos consultores-voluntários. Mais que um happy hour, o evento teve por objetivo reforçar o caráter agregador do espaço e ampliar a visibilidade do Projeto Chef Aprendiz.

É neste charmoso espaço que Beatriz e sua equipe de seis colaboradores fixos montam as estratégias destinadas a transformar jovens em situação de vulnerabilidade em auxiliares de cozinha. A turma mais recente se formou em meados de fevereiro e fez sua “prova de fogo” em um serviço de almoço para uma banca de jurados, no sofisticado Hotel Renaissance, no bairro dos Jardins. A dinâmica que fecha o ciclo formativo funciona como uma vitrine para os alunos, diante de donos de restaurantes. “Não adianta formar o jovem e não direcioná-lo para o mercado de trabalho”, destaca a fundadora do Chef Aprendiz.

Beatriz Mansberger chef aprendiz cartazBeatriz, criadora do Chef Aprendiz/ Fotos: Marcelo de Breyne 

 Neste quesito, o projeto também tem muitos resultados a apresentar. Desde a sua primeira edição, em 2015, o Chef Aprendiz já impactou a vida de 540 pessoas em oito comunidades da periferia e formou 130 jovens. A taxa de empregabilidade é elevada: 74% deles estão atuando em cozinhas de restaurantes de médio e grande portes. A lista inclui foodtechs (Cheftime), hotéis estrelados (Emiliano, Grand Hyatt e Palácio Tangará) e descolados (Koshô e Enoteca Saint Vin Saint). 

Essa potente rede de parceiros começou a ser articulada no final de 2014, quando Beatriz, então com 22 anos, atuava como voluntária em um projeto social em Paraisópolis, comunidade localizada no Morumbi. Graduada em Gestão de Políticas Públicas pela USP, campus Leste, com mestrado em Relações Internacionais no IBEI, de Barcelona, o ambiente da cozinha em sua vida sempre foi um universo de afeto. “Minha família é muito ligada à gastronomia, apesar de ninguém atuar profissionalmente nesta área”, conta.

Algumas coincidências, no entanto, acabaram levando-a para esse setor. Na época do voluntariado, além de namorar o chef de cozinha Phillip Hatt (seu atual marido e pai de Theo, de um ano), os realities sobre gastronomia estavam começando a ganhar terreno por aqui. “Quando fomos propor uma atividade formativa aos jovens de Paraisópolis, eles disseram que queriam fazer uma versão do MasterChef Brasil”, recorda. O namorado e o pai Rodolfo ajudaram. O primeiro montou a grade do curso, enquanto o outro abriu a casa para promover um workshop sobre feijoada, para os jovens. 

Mas o que tirou o projeto do papel e fez do Chef Aprendiz uma referência no setor foi a capacidade de Beatriz em fazer conexões, estreitar laços e convencer as pessoas a aderir à causa. Para levantar os recursos ela lançou uma campanha de crowdfunding no Catarse, que arrecadou R$ 37.980,00, 6% acima da meta inicial. Correu atrás de parceiros para conseguir as domas a preço de custo e recrutou voluntários por meio de contatos amealhados no LinkedIn. Aliás, foi graças a uma mensagem trocada via inbox dessa plataforma que a empreendedora social atraiu o primeiro patrocinador de grande porte: a Comgas, que manteve o apoio até recentemente. Hoje, a lista de patrocinadores e apoiadores da Casa Chef Aprendiz inclui potências do porte de Wickbold, Panasonic, Philadelphia, Oster e St. Mache.

Disputa final chef aprendiz 1 papo retoAprendizados para a vidaO ponto de virada, porém, aconteceu somente em 2019, quando rodava a sexta edição do Chef Aprendiz, na Casa do Zezinho, ONG situada na periferia da Zona Sul. Até então, Beatriz acumulava a realização do projeto com empregos, digamos, formais em consultorias e ONGs. “Conseguimos captar recursos suficientes para rodar o programa e remunerar a equipe. Naquele instante, entendi que poderia me dedicar integralmente ao projeto”, conta.

Ao longo desse percurso, a grade de cursos e o processo formativo também evoluíram para uma Tecnologia Social. “A gastronomia é um meio para formação pessoal e profissional do jovem, preparando-o para desenvolver plenamente seu potencial”, explica. Essas formações acontecem no período de seis meses, sempre no contraturno escolar. Os alunos recebem aulas teóricas e práticas sobre técnicas culinárias, a cargo do chef Guilherme Cardadeiro – ex-integrante do MasterChef Profissionais Brasil 2017 –, passam por dinâmica de alfabetização emocional e constroem seu plano de vida/carreira.

Na noite do happy hour, alguns jovens ajudaram o chefs Guilherme e Carolina Perez a preparar os canapés e as comidinhas, e servir os convidados. Deu para perceber que a turma do Chef Aprendiz não fica devendo em nada ao MasterChef da vida real.