Muçulmanos para a humanidade

Muçulmanos para a humanidade

Quando as forças americanas saíram do Afeganistão em 2021, eu estava estagiando na editoria Mundo da Folha de S. Paulo. Acabei lendo muito sobre essa história, acompanhando-a de perto. Não sei explicar o porquê, mas ela me marcou muito.

Um pouco mais de um ano depois, tive a oportunidade de acompanhar um dos próximos capítulos. Como projeto para uma aula, eu tinha que fazer uma parceria com uma ONG. A primeira coisa que veio à minha cabeça foram os refugiados. Eu queria entender o que tinha acontecido com aquelas pessoas. Como elas estavam? Onde tinham ido parar?

Tenho um pouco de vergonha de admitir que, procurando as ONGs em Boston que tinham recebido os afegãos, fiquei surpresa ao descobrir que a principal ONG que fazia esse serviço na cidade era muçulmana. A predominância das religiões cristãs no Brasil, faz com que imaginemos que as ações sociais focadas em caridade sejam uma exclusividade das ONGs ligadas a igrejas. Um engano.

Afinal, o que impediria os muçulmanos de praticar a caridade?

Por um lado, o comportamento de terroristas muçulmanos – que é o que sai no jornal quando se fala de Afeganistão – não ajuda em nada na imagem das pessoas de bem. Antes de estagiar na Folha, também tinha feito uma aula na faculdade sobre relações de gênero dentro do terrorismo religioso, onde aprendi, inclusive, que ele existe em várias religiões, incluindo o catolicismo, o que não ajudou muito o meu preconceito, mas, mesmo assim, não tinha porque eu não pensar que muçulmanos praticam caridade.

Foi aí que fiquei muito curiosa. Essa era a minha oportunidade de conhecer pessoas sobre as quais eu nunca havia pensado na vida. Não só sua cultura era muito diferente, mas também sua situação.

Ambos nos Estados Unidos, eu era estudante de uma faculdade, tinha casa e acesso à uma vida confortável. Quando conheci os refugiados afegãos, eles estavam acampados em um hotel afastado da cidade. Tinham deixado tudo para trás. Estavam vivendo de doações de comida e roupas. Não tinham emprego, casa, seguro, nada. Só uns aos outros e, claro, a ONG que os ajudava. Todo mês, a Muçulmanos pela Humanidade ia visitá-los. Funcionários e voluntários da organização faziam um jantar para as famílias, traziam roupas, brinquedos e produtos de limpeza. Os afegãos passavam o dia no hotel, sem perspectiva de futuro. Tinham que esperar que o governo americano regularizasse sua situação antes de poderem tentar recomeçar suas vidas.

Do contrário do que eu imaginaria, muitos tinham uma vida estável em seu país. Antes do controle do Talibã, eram engenheiros, tradutores e advogados, por exemplo. Uma menina da minha idade tinha interrompido a faculdade. Ela estava no caminho para se tornar piloto de avião. Me disse que, assim que saísse daquele hotel, iria retomar o curso nos Estados Unidos. Encontrei ela alguns meses depois num ônibus em Boston. Cansada, ela me contou que sua família tinha conseguido se mudar para a cidade, mas que ela estava tendo muitas dificuldades para achar um emprego. Não tinha conseguido retomar o curso de piloto.

Isabela rocha muculmanos para o mundo 1 papo retoIsabela durante trabalho voluntário, em BostonDepois do meu primeiro dia visitando refugiados no hotel, nunca mais parei de me voluntariar para aquela ONG. Muçulmanos para Humanidade é muito bem estruturada e ajuda milhares de pessoas –muçulmanas e não muçulmanas – pelos Estados Unidos inteiro. O que mais me surpreende até hoje sobre seus voluntários é como eu sou a única não-muçulmana que conheço a participar regularmente de suas ações. Por que uma organização tão impactante não é conhecida? Porque as pessoas não vem contribuir com o trabalho deles?

Existe um grande estereótipo de que as mulheres muçulmanas são constantemente controladas e infelizes, mas uma das principais líderes da ONG em Boston é uma mulher. O que mais aprendi com ela é como a gente sempre pode encontrar tempo para ajudar as pessoas. Como muitas mulheres fodas que eu conheço, ela faz mil coisas ao mesmo tempo, mas sempre estende a mão para os outros. Tive que falar com ela para poder ser voluntária na ONG. Ela sabia que eu não era muçulmana, mas não demonstrou nenhum receio com essa questão. Nem me conhecia e passou para me dar uma carona até o hotel onde estavam os refugiados, mal conseguia sentar no seu escritório de tantas doações que aceitava, e fazia listas de pedidos “extras” para encomendar para as famílias qualquer coisa que precisassem e que as pessoas não tivessem doado.

Sobre as roupas, nunca ninguém comentou sobre algo que eu estivesse vestindo, me deu orientações sobre o que vestir, ou me obrigou a cobrir a cabeça. Em respeito à cultura da maioria das pessoas que contribuem para a organização, eu evito decotes e roupas curtas, até porque, para mim, essas não são as roupas mais práticas para, por exemplo, carregar sacolas de comidas pesadas até porta-malas de carros, mas essa é uma escolha minha. Nunca me senti pressionada a me comportar de uma maneira específica. Sempre fui muito bem recebida e tratada, coisa que nem sempre vi no ambiente católico onde fui criada.

Uma das coisas mais básicas que aprendi nesse voluntariado e que não posso deixar de falar é que nem toda a roupa que você não usa mais pode ser doada. As pessoas que recebem as doações merecem dignidade. Por favor, não dê roupas rasgadas, furadas, sujas, com zíperes quebrados, ou velhas demais. Ninguém merece receber itens assim. Você estará usando as pessoas como lixo.

Fazer um serviço comunitário é um dos melhores jeitos de ver o mundo como ele realmente é. Mas para aprender mesmo, tem que botar a mão na massa. Não é simplesmente doar coisas, mas ir lá fazer as entregas, conhecer as pessoas, conversar com elas. Temos que servir o jantar, botar a mesa, tirar o lixo. Só assim é possível entender o que as pessoas realmente precisam, como elas vivem, o que pensam, do que gostam. Impacto social de verdade é aquele que enxerga as pessoas, não que imagina como elas são.  

 

Isabela Rocha
Author: Isabela Rocha
Sobre o/a Autor(a)
Isabela Rocha É jornalista freelancer nos Estados Unidos. Apaixonada por escrita, comunicação e justiça social, seu sonho profissional é trabalhar para o avanço da igualdade de gênero e do combate ao racismo. Ela acredita no poder democrático das notícias e sempre busca contar histórias relacionadas à diversidade para normalizar a vida de minorias sociais.
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