O jornalismo nas redes sociais

O jornalismo nas redes sociais

As redes sociais não são mais apenas lugares de meme e publicidade. São um veículo, e precisamos tratá-las como tal. Muitos leitores deixaram os jornais de lado para se informar – ou desinformar – nesse espaço. Se queremos manter nossa credibilidade como mídia e promover a democracia por meio da informação, precisamos falar a língua do público.

Vejo muitos jornais usando suas redes para compartilhar links de histórias ou trechos que “fisgam” o leitor para o site. Como eram consideradas um ambiente social no começo, isso até fazia sentido.

O problema é que, lendo apenas as manchetes ou partes do texto original, algumas histórias podem parecer tiradas de contexto já que o leitor não tem acesso aos detalhes. Quando o conteúdo não é formatado pensando num seguidor que não vai clicar no link para ler mais, a informação fica aberta à interpretação, o que pode custar nossa credibilidade.

Outro dia me mandaram um vídeo que criticava a mídia por não ter dado contexto o suficiente em uma reportagem que circulou em massa. A pessoa mostrava várias manchetes, “revelando” em seu discurso como o buraco da história era muito mais embaixo do que os jornais tinham divulgado. Ou seja, no meu entender, deixou implícito que tínhamos tirado a história de contexto, distorcendo a informação dada ao público.

O que o(a) autor(a) do vídeo não entendeu é que, se ele(a) tivesse lido as reportagens, teria visto que a informação que ele(a) “revelou” estava lá, só que ficou nos parágrafos mais para baixo. Assumindo que o público das redes não lê o jornal, não teria como interpretarem o conteúdo de outro jeito. Essas pessoas não sabem que colocamos a informação mais relevante para o leitor acima, deixando os detalhes para quem tem mais tempo de ler.

Historicamente, o jornalismo sempre se adaptou ao público que pretende atender.

Uma das primeiras coisas que aprendi na faculdade (acabo de me formar na Boston University) foi escrever do jeito mais simples possível – ai de quem falasse “veículo” em vez de “carro”! Esse modelo foi criado pela mídia para garantir que a informação seja acessível para todos os leitores.

No rádio, nossos profissionais encurtaram as frases, evitando vírgulas. A fala ficou mais direta para quem ouvir quando está dirigindo não ter que processar muito a informação.

Na tevê, adaptamos o texto para complementar a imagem. Não dá para repetir ou ignorar o que está na tela.

Nas notícias on-line, elaboramos mais a parte analítica, já que tem mais espaço para escrever no site. Também encurtamos as manchetes para chamar atenção do leitor e caber na tela. Agora, é hora de a indústria dar mais um passo para frente: entender a grandeza e admitir a importância das redes sociais.

Brewnews 1 papo reto

Claro que não é um processo fácil, principalmente com a pergunta de sempre: como fazemos dinheiro com isso? A última coisa que queremos é desperdiçar recursos, mas ouso dizer que as *redes sociais podem fazer com que a indústria de notícias cresça e alcance ainda mais pessoas.

Um exemplo de quem entendeu bem o recado é o grupo de mídia Morning Brew. Por meio de newsletters, podcasts, eventos e contas nas redes sociais, eles trazem notícias do mercado financeiro numa linguagem bem pop e otimista. Seu conteúdo é todo formatado para as redes, com emojis, resumos e explicações para quem cai de paraquedas nas notícias. Adoram usar trocadilhos e fazer piada nas histórias quando é de bom tom, mas também tem um “tour de manchetes” diário onde resumem – bem resumido – os principais acontecimentos do dia. Fundada em 2015, a empresa só cresce (possui quatro milhões de assinantes), provando que o formato é lucrativo.

Claro, não existe uma fórmula mágica ou perfeita. Por ter uma pegada tão “pop”, algumas notícias ganham um tom de fofoca, o que pode acabar tirando um pouco sua seriedade aos olhos do público. Ao ajustar o conteúdo, vale sempre pensar na imagem e na missão do seu jornal para encontrar um equilíbrio entre seus valores e os dos seus leitores.

Entrar na onda das redes é um caminho arriscado, mas importante e muito promissor. É mais que hora de entendermos e nos adaptarmos a esse veículo. Só assim poderemos, nós jornalistas, continuar cumprindo nosso papel de agentes democráticos.

Conheça outros projetos jornalísticos focados nas redes sociais (em inglês):

The Skimm, fundado por Carly Zakin e Danielle Weisberg, em 2012, é focada nos Milenialls, nascidos entre 1981 e 1995

Politico, focado no que acontece em Washington

 

 

Isabela Rocha
Author: Isabela Rocha
Sobre o/a Autor(a)
Isabela Rocha É jornalista freelancer nos Estados Unidos. Apaixonada por escrita, comunicação e justiça social, seu sonho profissional é trabalhar para o avanço da igualdade de gênero e do combate ao racismo. Ela acredita no poder democrático das notícias e sempre busca contar histórias relacionadas à diversidade para normalizar a vida de minorias sociais.
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