Procurando emprego nos Estados Unidos

Procurando emprego nos Estados Unidos

Chegou a minha hora. Depois de quatro anos ouvindo os adultos me perguntarem “o que você pretende fazer depois que terminar a faculdade?”, sou finalmente obrigada a responder: não sei!

Como uma cidadã estrangeira (classificada na categoria internacional), procurar um emprego nos Estados Unidos é bem complicado. Uma conselheira de carreira da minha universidade disse à minha colega de quarto – estudante de engenharia e computação – que para ela conseguir um emprego teria que se inscrever em mais ou menos 100 processos seletivos. Por serem mão de obra vantajosa para a indústria americana, a galera de exatas têm direito a três anos de extensão do visto estudantil para trabalhar, desde que o emprego seja relacionado à área de formação. No meu caso, tenho um ano, que começa a contar em julho, e posso ficar legalmente desempregada até outubro.

Parece bastante tempo, mas passa muito rápido. Por causa da minha identidade, estou posicionada num nicho social complicado para a carreira jornalística:

INTERNACIONAL - O custo de emitir um visto para internacionais pode chegar a mais de US$ 5 mil para o empregador. Jornais maiores têm esse cachê, mas são os mais competitivos do país. Ao aplicar para um emprego, irei concorrer com americanos que cobrem um tema há cinco anos. Nesse contexto, eu e meus cinco artigos do The Boston Globe não nos destacamos muito na multidão. Tem muito repórter americano bom que pode ser contratado por alguns mil dólares a menos.

Fui criada no estilo de redação americana: escrevo frases curtas, frias, foco em contar exatamente os fatos. Tive que decorar a gramática para provas e sempre sou uma das melhores alunas das aulas. Mesmo assim, sou uma candidata muito cara, e um investimento arriscado do ponto de vista dos empregadores, que ficam desconfiados em relação ao meu inglês. Durante um processo seletivo, quando ouço a pergunta “você vai precisar de patrocínio de visto no futuro?”, já sei que é "fim de jogo" para mim.

Todo site corporativo, inclusive no seguimento de mídia, diz que a empresa não discrimina por nacionalidade na hora de escolher quem contratar – exigência prevista por lei federal –, mas o sistema de contratação atual dificulta muito a vida dos internacionais.

BRASILEIRA - A população hispânica nos Estados Unidos cresceu em aproximadamente 51% nos últimos 10 anos, de acordo com dados publicados em 2021 pelo Pew Research Center. No caso dos brasileiros, o Itamaraty estima que cerca de 1,8 milhão residam nos Estados Unidos – nossa maior comunidade fora do Brasil. Nessa mistura, pensei que me vender como repórter seria relativamente fácil, já que posso cobrir notícias sobre e para esse público em crescimento.

Falo português, inglês fluente e, de acordo com o Instituto Cervantes, meu espanhol é intermediário-avançado. Só que o número de latinos nascidos nos Estados Unidos cresce a cada ano – quatro a cada cinco hispânicos são cidadãos americanos, segundo pesquisa do Pew Research Center –, aumentando o número de pessoas que falam espanhol e não precisam de taxa para poderem ser contratados.

Além disso, o fato de o espanhol não ser a minha língua nativa atrapalha, já que brasileiros não são maioria entre os latinos. Entre mim e uma colombiana com as mesmas qualificações, vão escolher ela, mesmo que tenham de arcar com o custo do visto. Por aqui, nacionalidade é muito ligada à competência. Se eu soubesse a gramática espanhola de cor, talvez tivesse uma chance maior. Mas, mesmo assim, teria que trabalhar o dobro para provar que sei escrever bem.

E por que não voltar para o Brasil? É uma opção sobre a mesa, mas, uma vez que tenho direito a estender meu visto de estudante por um ano, queria aproveitar essa oportunidade. Apesar de difícil, não é impossível.

Fazendo networking, conversei com vários jornalistas brasileiros que moram aqui, e todos me encorajaram a tentar alguma coisa. Acho que ainda tenho muito que aprender e esse mercado tem bastante a me ensinar. Tenho professores e contatos que me apoiam e acreditam no meu potencial.

Além disso, acho que tem um pouco a ver com meu orgulho nacional. Quero ser do time que quebra barreiras, que mostra ao mundo que brasileiros também podem ser excelentes repórteres em organizações internacionais. Estou disposta a dar tudo de mim para tentar conseguir esse emprego. Afinal, seria uma grande honra e um grande aprendizado em minha nascente carreira de jornalista.

.

Sobre a Pesquisa da Pew Research

Sobre visto para trabalhador internacional

Sobre a Comunidade Brasileira no Exterior

 

 

Isabela Rocha
Author: Isabela Rocha
Sobre o/a Autor(a)
Isabela Rocha É jornalista freelancer nos Estados Unidos. Apaixonada por escrita, comunicação e justiça social, seu sonho profissional é trabalhar para o avanço da igualdade de gênero e do combate ao racismo. Ela acredita no poder democrático das notícias e sempre busca contar histórias relacionadas à diversidade para normalizar a vida de minorias sociais.
Mais artigos