Reflexões do dia da formatura

Reflexões do dia da formatura

Dá para contar nos dedos o número de brasileiros negros, pardos e amarelos que conheci em quatro anos de faculdade nos Estados Unidos. Já indígenas, nunca nem ouvi falar de algum que estudasse por aqui. Apesar de serem apenas mais ou menos 42,7% da população do nosso país (digo mais ou menos porque os dados do IBGE são de 2019; de lá para cá, já passou muita água por baixo da ponte), brancos são maioria entre os que têm a oportunidade de estudar fora.

É importante considerar que estudei numa faculdade de classe média americana. Isso significa que a maioria dos estudantes pegam empréstimos para pagar seus estudos e não fazem grandes doações à universidade, coisa comum nas Ivy Leagues, como são chamadas as faculdades mais prestigiadas, antigas, e tradicionais dos Estados Unidos. Nessas, estudam os filhos de famílias renomadas, que doam bibliotecas, dormitórios e financiam pesquisas para as instituições.

Parte do dinheiro das universidades vai para bolsas de estudos, e, na falta de grandes doações, a minha faculdade prioriza os americanos na hora de distribuir esses auxílios, o que dificulta que brasileiros não-brancos tenham acesso à educação que tive, já que os não-brancos fazem parte da maioria dos desempregados, trabalhadores informais, e pessoas abaixo da linha de pobreza em nosso país, de acordo com dados do IBGE de 2018.

Isso não é dizer que todos os brancos que chegam até aqui são ricos –conheço pessoas muito batalhadoras que pagaram a faculdade com ajuda de programa de bolsas no Brasil e trabalhos secundários – mas é uma reflexão sobre uma das muitas razões de porquê não vi muita diversidade em meus anos de estudo.

Instituições com mais dinheiro tendem a conceder mais bolsas para estrangeiros, o que permite que a sua população estudantil que vem de fora seja um pouco mais diversa. Mesmo assim, vi numa rede social recentemente o post de Arthur Abrantes que afirmou ser o primeiro brasileiro negro a se graduar em Harvard.

arthur abrantes 1 papo retoArthur Abrantes, graduado em Harvard na turma 2022 (mais informações aqui)

Seria muito difícil checar esse dado já que teríamos que pedir acesso aos registros da universidade, e, por razões de privacidade, eles provavelmente diriam não. Mas, dada a convivência com meus colegas e brasileiros de outras faculdades, sou inclinada a acreditar que isso provavelmente seja verdade, ou que pelo menos seja muito perto dela.

Junto às dificuldades financeiras, negros e pardos no Brasil tem menos acesso à educação básica, moradia estável, cargos gerenciais e representação política, além de serem mais expostos à violência, de acordo com os mesmos dados de 2018 do IBGE. Todos esses fatores dificultam a jornada que é estudar fora do país, desde o processo de preparação para aplicar para as instituições até o dia da graduação; que inclui quatro anos morando sozinho, num país diferente, longe da família e com opções de empregos que pagam mal por causa de restrições impostas pelo visto.

Com a diversidade em moda no discurso nas redes sociais e no marketing das empresas, espero que, quando meus filhos estiverem se formando, essa realidade seja diferente. No meio tempo, deixo abaixo uma lista de dicas para quem procura bolsas para estudar em outros países, e um site para quem quer ir especificamente aos Estados Unidos.

 

SAIBA MAIS:

Dicas para buscar bolsas de estudos no exterior

Saiba o que é necessário para estudar nos EUA

 

 

Isabela Rocha
Author: Isabela Rocha
Sobre o/a Autor(a)
Isabela Rocha É estudante de jornalismo e estudos de gênero, sexualidade e da mulher nos Estados Unidos. Apaixonada por escrita, comunicação e justiça social, seu sonho profissional é trabalhar para o avanço da igualdade de gênero e do combate ao racismo.
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