Entre Mulheres: o poder da escolha

Entre Mulheres: o poder da escolha

Recentemente, fui a um festival de filmes independentes aqui em Boston para assistir a película Entre Mulheres (Women Talking, no título original), que conta a história de um grupo de mulheres em uma comunidade religiosa que são drogadas e estupradas pelos homens de seu grupo. De crianças a idosas, nenhuma escapa da violência, enquanto os homens da aldeia se protegem entre si por meio do silêncio – apenas um deles, que já viveu fora da comunidade, se dispõe a ajudar as vítimas.

Quando o filme começou, achei que ele se passava em tempos antigos. Mas uma cena denuncia a contemporaneidade da história, que, de acordo com o IMDb, na verdade se deu em 2010. Apesar de ser um tanto abstrato – no sentido de que a moral da história é, a meu ver, bem conceitual – o roteiro é baseado em um livro que tem como inspiração os diversos “estupros fantasmas” que aconteceram na Bolívia, de acordo com a autora do livro.

O mais chocante é como a história, verdadeira ou não, representa a realidade das mulheres em 2022, e nos faz refletir sobre uma das armas mais poderosas do machismo: o silêncio. As mulheres da comunidade veem três possíveis soluções para a violência: perdoar os homens, ficar e lutar ou ir embora dali. Analfabetas e criadas para cuidar das crianças e do lar, elas se mostram paralisadas com possíveis consequências de suas escolhas: ir para o inferno caso não perdoem os homens, perder a luta se ficarem e terem de enfrentar o desconhecido se optarem em fugir.

Sentimentos compreensíveis, uma vez que elas não conhecem sua capacidade e seu poder, nem tiveram a oportunidade de usá-los. Um diálogo muito poderoso no filme se dá a partir da hipótese de se escolher a terceira opção: “Quando nos libertarmos, teremos que perguntar a nós mesmas quem somos.”

Uma estrutura fundamental para controle e opressão de um grupo social é definir as pessoas sem deixar que elas se definam. Quando se é criado dentro de um contexto pré-determinado, não existe incentivo para explorar outras possibilidades. A pessoa pode até “ficar com uma pulga atrás da orelha” ou imaginar cenários na cabeça, mas tudo é tão padrão e normalizado que nem cogita comentar suas ideias com outras pessoas, já que se tem certeza de que não pensam assim. Impedir que as pessoas se definam ajuda a afastar ideias libertadoras.

me too eua 1 papo retoNo filme, muito além do analfabetismo, que impede as mulheres de terem uma independência prática em relação aos homens (elas não podem estudar ou trabalhar), o controle da identidade delas e o silêncio dos homens sobre o estupro as impede de conversar sobre o assunto. Elas só se unem para resolver o problema quando os homens saem por um dia da comunidade, e, mesmo pensantes e trocando ideias, ainda têm medo do que pode acontecer se solucionarem o problema, já que nunca cogitaram uma realidade alternativa.

Na vida real, o cenário não é muito diferente. Vejamos o exemplo do movimento #Metoo (em português, #Eutambém) nos Estados Unidos, por meio do qual mulheres compartilharam suas histórias de violência sexual. A fundadora do movimento, Tarana Burke, acredita no “empoderamento pela empatia”. Ou seja, a quebra do ciclo do silêncio por parte das vítimas, compartilhando suas experiências, faz com elas percebam que não estão sozinhas, e lhes dá a oportunidade de definirem o que é a violência imposta sobre seus corpos.

Se uma mulher se incomoda com certos toques ou atitudes sobre seu corpo mas vê as mulheres a sua volta lidando “normalmente” com isso, quem é ela para dizer que estaria sofrendo uma violência? O silêncio leva ao isolamento e à desinformação, mantendo tudo e todos no lugar onde foram colocados. O filme Entre Mulheres conta exatamente a mesma história. Quando as mulheres da comunidade tiveram um espaço para conversar suas experiências, elas finalmente conseguiram identificar que sofriam violência e começaram a pensar em possíveis soluções para o problema.

Aqui  nos Estados Unidos, principalmente nas universidades, se fala muito da figura do bystander, nome dado à pessoa que testemunha um ato de violência sexual. O estereótipo dessa figura é de um observador silencioso, que não faz nada para impedir o ato, normalizando e perpetuando a agressão por meio do silêncio. Muitos departamentos de combate ao estupro de universidades promovem treinamentos para mudar essa postura, explicando o que as pessoas podem fazer caso presenciem esse tipo de violência. Como se trata de um assunto de utilidade pública, compartilho aqui as três principais táticas:

1) intervir diretamente;

2) pedir ajuda para alguém;

3) criar algum tipo de distração no momento para tirar a vítima dali.

Infelizmente, o estupro nas universidades americanas ainda é um problema seríssimo. Os casos são recorrentes nas festas e entre grupos de “amigos”, como as Fraternidades e as Sororidades que, em sua maioria, são organizados a partir de valores machistas. Exemplo: para ter acesso a uma festa em determinada Fraternidade, um grupo de amigos precisa contar com mais mulheres do que homens. Muitas vezes, os homens pagam ingresso enquanto as meninas entram de graça.

Cultura do estupro no Brasil

ana paula araujo abuso 1 papo retoPelo que conta a jornalista Ana Paula Araújo em seu livro Abuso: A cultura do estupro no Brasil (leitura que recomendo muito para quem se interessa pelo assunto, mas tem que ter estômago para ler, porque é um livro pesado), além de a violência sexual também ser parte da cultura universitária brasileira, ela também é protegida pelo ciclo do silêncio. Não participei da vida universitária no Brasil, mas lembro que foi no colegial que entrei em contato com essa cultura.

Lembro de ir em festas nas quais alguns meninos “forçavam a barra” para conseguir um beijo. Parecia que “Não” nunca era uma resposta. Nestes ambientes, já ouvi afirmações do tipo “ela tá sorrindo porque ela quer”, quando, muitas vezes, a menina estava sem graça por não saber como lidar com a situação. Não pontuo estes casos para me colocar no papel de vítima. Ao contrário, eu era feliz. Apesar de ter uma pulga atrás da orelha, o fato das minhas amigas viverem as mesmas coisas que eu e ninguém levantar uma bandeira contra isso me fazia imaginar a situação como natural na interação entre homens e mulheres.

Diferentemente do que acontece nos Estados Unidos, acredito que no Brasil o silêncio é tamanho que nem chega a ser um silêncio. A violência sexual é tão normalizada que ela não é vista como tal e, logo, não existe. Como nos ensina o filme Entre Mulheres, precisamos discorrer sobre nossas experiências para nos conhecermos, nos definirmos e nos libertarmos. Quando se trata de violência sexual, “uma pulga atrás da orelha” não é paranoia. E não é necessário um ato grandioso para dar início a um debate em prol da mudança de comportamento. Compartilhar sua experiência, mesmo que seja com alguém que você confia, já quebra o ciclo do silêncio e possibilita abalar uma estrutura que só beneficia os agressores.

 

Isabela Rocha
Author: Isabela Rocha
Sobre o/a Autor(a)
Isabela Rocha É jornalista freelancer nos Estados Unidos. Apaixonada por escrita, comunicação e justiça social, seu sonho profissional é trabalhar para o avanço da igualdade de gênero e do combate ao racismo. Ela acredita no poder democrático das notícias e sempre busca contar histórias relacionadas à diversidade para normalizar a vida de minorias sociais.
Mais artigos