Inverno nos EUA: festas, dinheiro e controvérsias coloniais

Inverno nos EUA: festas, dinheiro e controvérsias coloniais

A temporada de inverno nos Estados Unidos é marcada por grandes festas e mudanças. Com a chegada do frio, abrem-se os rinques de patinação no gelo, as feirinhas de fim de ano e os vários eventos públicos e privados relacionados às festas, com um foco maior no Hanukkah e no Natal.

Ao mesmo tempo, a vida para, mas continua. Grande parte dos dias são vividos dentro de casa por causa das temperaturas baixas – já peguei sensação de -17 C em Boston, a rua ficou deserta. As baladas (pelo menos as que eu frequento) não ficam tão cheias, por exemplo, já que ninguém quer ficar muito tempo esperando no frio para entrar.

Mesmo assim, todos vão para as aulas e trabalham normalmente. A vida segue.

parque boston 1 papo retoEntrada de playground no Boston Commons, principal parque de Boston, decorada com luzes de Natal/ Foto: Isabela Rocha

O início da temporada acelera no último fim de semana de novembro, com dias de grande lucro para lojas no país.

Tudo começa com o feriado do Dia de Ação de Graças (ou Thanksgiving, em inglês), sempre numa quinta-feira, que leva às pessoas a correrem aos mercados para comprarem comida para as comemorações. Na sexta, já emenda a Black Friday, dia de descontos em lojas por todo o país, que emenda no Small Business Saturday no sábado, dia que incentiva as pessoas a comprarem de pequenos negócios.

O empurrão de compras finalmente termina com a Cyber Monday, na segunda, dia de descontos nas lojas on-line. E, se sobra algum dinheiro, terça-feira é Giving Tuesday, dia em que organizações (com e sem fins lucrativos) pedem doações para apoiar o seu trabalho.

A Federação Nacional de Varejo nos Estados Unidos estimou que 63% dos consumidores de fim de ano no país pretendiam fazer compras durante o fim de semana do Thanksgiving, equivalente a 166.3 milhões de pessoas.

As três principais justificativas dadas pelos consumidores para as compras são os descontos, a tradição e a possibilidade de fazer da atividade um programa para o feriado.

Já o Adobe Analytics estimou que, no mercado de compras online, o Thanksgiving deste ano renderia US$ 5,14 bilhões, a Black Friday US$ 8,9 bilhões e a Cyber Monday US$ 11,2 bilhões em negócios, em todo país.

manequim 1 papo reto black fridayManequim com placa de desconto da Black Friday na Newbury Street, a principal rua de compras em Boston/ Foto: Isabela Rocha

Mas, nem tudo são flores.

Apesar de bonito e barato, esse fim de semana tem suas controvérsias. A história tradicional do Thanksgiving conta que o feriado foi criado para celebrar um episódio de união entre indígenas e colonizadores. Resumindo bastante: a versão “oficial” diz que, ao chegar ao noroeste dos Estados Unidos – mais especificamente, na região hoje conhecida como Nova Inglaterra –, um grupo de colonizadores britânicos foram acolhidos por indígenas americanos, que os ensinaram a plantar e encontrar alimentos entre a flora e a fauna local.

A colheita foi de sucesso, e, para comemorar, os colonizadores fizeram um banquete, convidando os indígenas como agradecimento. O feriado é um símbolo de união e um dia para se valorizar as pessoas e as coisas por quem se é grato – por isso o nome Dia de Ação de Graças.

Acontece que, na prática, parece que a relação entre os colonizadores e os indígenas não foi exatamente assim.

Como toda boa história escrita por colonizadores, essa versão coloca os ingleses como corajosos e os indígenas como ingênuos, mas um artigo da revista do museu americano Smithsonian conta como a chegada deles causou um estrago permanente na vida e no arranjo social dos indígenas que viviam ali. A “união” dessas duas comunidades foi marcada por décadas de expansão do território colonial, a disseinação de doenças trazidas da Inglaterra e a exploração de recursos naturais no território indígena.

É claro, os indígenas não se mantiveram pacíficos. Com cada lado defendendo sua comunidade, as tensões escalaram para um conflito armado que devastou a população indígena e estabeleceu a soberania europeia na região.

Outra inconsistência é que, na história, os indígenas “ingênuos” acolheram os europeus, mas, como conta o artigo, o líder da tribo fez uma aliança com os colonizadores em troca de proteção contra tribos rivais.

Por esse episódio, o povo descendente dessa tribo Wampanoag vê o feriado como um dia de luto, não de comemoração.

post instagram isabela rocha 1 papo retoPost do Instagram do site de notícias americano Boston.com, mostrando uma foto onde estátuas icônicas na cidade foram vestidas de colonizadores em homenagem ao Thanksgiving; a foto gerou comentários críticos e a favor do ato

Há 53 anos, manifestantes se unem na cidade de Plymouth – onde a primeira “celebração” que deu origem ao feriado teoricamente aconteceu – no dia do Thanksgiving para alertar sobre o Dia Nacional do Luto, relembrando “o genocídio de milhões de indígenas, o roubo de terras e o apagamento das culturas indígenas,” de acordo com a organização United American Indians of New England (em português, União dos Indígenas Americanos de Nova Inglaterra).

Apesar de lento, o movimento pelos direitos indígenas nos Estados Unidos tem obtido algumas vitórias. Este ano, o governo federal mudou o nome de quase 650 pontos geográficos (como rios, vales e picos) batizados com palavras de conotação negativa contra mulheres indígenas. 

 

Isabela Rocha
Author: Isabela Rocha
Sobre o/a Autor(a)
Isabela Rocha É jornalista freelancer nos Estados Unidos. Apaixonada por escrita, comunicação e justiça social, seu sonho profissional é trabalhar para o avanço da igualdade de gênero e do combate ao racismo. Ela acredita no poder democrático das notícias e sempre busca contar histórias relacionadas à diversidade para normalizar a vida de minorias sociais.
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